terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Maysa Ressurge

Confesso que faço parte do grupo de pessoas que nunca havia escutado uma canção de Maysa, mas que sintonizou na Rede Globo para assistir à minissérie exibida em homenagem à cantora. Como fã não tão antigo de MPB e apreciador de boas histórias e grandes personalidades - esta qualidade primordial de Maysa já explícita nos comerciais anteriores à estréia -, senti-me obrigado a acompanhar tal programa, um oásis do bom gosto na programação da tevê aberta. O triunfo da minissérie foi algo inesperado para mim. Recorde de audiência no primeiro capítulo, marcando entre 29 e 32 pontos! Depois do considerado "fracasso" de Capitu (eu pouco/nada entendo do IBOPE), acreditei que Maysa seguisse a mesma trilha. Nada mal para um programa tão bom - acostumei-me ao sucesso das porcarias e fracasso das boas obras na TV. Não é à toa que Maysa - Quando Fala o Coração se transformará em filme até o fim do ano. Com um minucioso trabalho de direção de arte, figurino, efeitos especiais e roteiro, está longe de se assemelhar às bobagens novelescas exibidas pela Rede Globo. Superou as minhas expectativas! A própria emissora se arrependeu de ter encurtado a minissérie para nove capítulos - aparentemente, seriam dezesseis na edição original - dado o sucesso da mesma. Ao menos Jayme Monjardim, filho da cantora e diretor da minissérie, admite que se trata da história de uma grande mulher que, por acaso, era cantora. Quando Fala o Coração explora a vida pessoal de Maysa e pouco de sua música e importância para a cultura nacional, embora algumas de suas gravações mais famosas sejam inteligentemente inseridas no contexto da trama. Pensando assim, até que dá para entender o sucesso da minissérie. Na era das celebridades-problema, Maysa foi uma espécie de pioneira. A divergência essencial era que Maysa não era a polêmica vazia - era a expressão do talento em uma vida conturbada e autêntica, documentada em suas belíssimas canções melancólicas. Uma espécie de Jezebel à la Bette Davis de sua época. Talvez, em um breve momento de reflexão, o grande público espectador de Maysa - Quando Fala o Coração lamente que em nossos tempos sobre muito espaço para a polêmica enquanto o talento é descartado sem grandes preocupações... (Britney Spears?) Mas, ao fim, Maysa ressurge. Seu nome, antes badalado apenas pela elite apreciadora de MPB, ganha a força do mainstream. A Star Is Re-Born. Parecido com o ressurgimento de Elis Regina há alguns anos. Agora serão relançados os CDs, montados DVDs, reeditadas biografias e tudo o que se tem direito para os antigos e novos admiradores da cantora. Nada mais do que merecido. Na falta de ídolos e artistas verdadeiros como Maysa, resta-nos isto: redescobrir os bons que não voltam mais!

sábado, 17 de janeiro de 2009

Shoebox

"Quando eu falava dessas cores mórbidas
Quando eu falava desses homens sórdidos
Quando eu falava desse temporal
Você não escutou...

Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal.."

'Paisagem da Janela', Lô Borges


Que fazem conosco? Nós, os dean-cliftianos do século XXI. Nós, os Michael Jacksons, os Peter Pans privados de Terra do Nunca sem granadas e homens-bombas. Nós, os mártires de apartamento, cerrados em blocos de concreto neste verão interminável-irremediável de cidade do litoral. O fardo da cruz da excepcionalidade! Inestimável tolice aquela minha, de guardar os olhos limpos e as mãos quentes, o sorriso afável. Lô me faz lembrar, em dois minutos e cinquenta e cinco segundos, tudo o que esqueci tão facilmente, ocupado com a amabilidade enorme deste coração. Tinha esquecido das cores mórbidas, dos homens sórdidos. Não via os temporais e tampouco escutava os trovões. Que torpor existencial poderia ter sido este, que me fez contemplar a blueness de viver com tanta inconsciência? Por quanto tempo estive dormindo? Que complacente sonho este, que remove o mal dos outros, mas o deixa permanecer em mim. Ouço ainda a voz de Lô, meio zombando, meio cara-que-dá-a-mão-pra-essa-gente-confusa, dizendo que não quero acreditar, embora seja tão normal. Quanta traição nestas doces palavras! Como de joelhos no asfalto, diante das árvores, da terra, dos pássaros, do Sol, das nuvens, do céu, do Todo-Poderoso proclamo: que possível culpa tenho eu? Mas Ele, seja lá onde esteja, não responde, e resta a mim viver aqui, neste quartinho com as minhas coisas, com o turbilhão de palavras malditas que não me esquecem e com esta culpa, minha tão grande culpa, que vem por culpa minha não ser, mas que nem logicamente deixa de ser culpa. Tomo as palavras de Lô como minhas. Parecem escritas sob medida para fortalecerem meu corpo desgastado, ajudam-me a afiar as unhas e os dentes. Acordam-me daquele sono hedônico e babaca, daquele marasmo que já vivi e que nunca poderia constituir resquício de felicidade. Não há felicidade na obediência aos homens sórdidos. A sordidez da perpetuação do “ser” ínfimo, àqueles que querem reduzir toda essa nossa beleza, toda essa nossa cara-de-pau de ser feliz a uma mera shoebox vazia. Sim, querem nos trancar em um papelão e que nos contentemos com tal medíocre destino! E enquanto a cólera e o escárnio do meu riso tão upminded me alegra, não sei até que ponto os homens sórdidos triunfam, apesar de todos esses nossos esforços em conservar-nos íntegros em nossa singularidade. Quanto a mim, não sei e não gosto de pensar em possível derrota. Se pensar e encontrar em mim este vão de maledicência o qual tanto abomino, corro o risco de surtar precocemente – entendam, ainda não sou mega-artista para projetar minha dor ao mundo, à lá Judy Garland, que será compartilhada e martirizada entre tantos outros corações iguais a este que bate agora. Mas o que sei é que em mim restou essa grande saudade latente. Esta saudade meio technicolor de querer ser feliz. Mas não tenho mais cinco anos. E não ter mais cinco anos pode ser a coisa mais triste do mundo e te transformar no cara mais trágico de toda a história, se há a possibilidade de, com tudo e apesar de tudo, você acabar em uma shoebox. E como sair? Como rebelar-se das amarras do mundo pra ser céu e terra, um espírito livre? Quem sou eu para dizer? Graças a seja lá quem ou quê, não fui dotado com os talentos duvidosos dos escritores de auto-ajuda. Posso dizer que estou no mesmo barco que você e que estamos aí, respirando a cada dia que termina e que começa, lutando. E acreditando nessa loucura mítica, no pote de ouro além do arco-íris que chamam de felicidade. E ficando longe dos tarjas pretas, como não fez Marilyn Monroe.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Quando o Ídolo Incomoda os "Fãs"

"As pessoas não sabem como são as coisas para mim. Ninguém sabe, realmente. Ninguém deveria julgar o que fiz com a minha vida. A não ser que tenham calçado os meus sapatos em cada dia horrível e cada noite sem dormir." - Michael Jackson, 1995

Como já é de praxe, a última aparição do megastar Michael Jackson causou furor nos demais grupos de discussão destinados aos seus fãs na web. O Rei do Pop visitou uma livraria em Los Angeles na véspera de Ano Novo, com um sobretudo por cima de um suposto pijama (este só fui notar após os comentários aflitos e desesperados de alguns fãs), sua usual máscara cirúrgica, óculos de leitura e chapéu. Nada de extraordinário para quem acompanhou Jackson em algum momento dos últimos 15 anos. Qual seria a polêmica então? Ora, a polêmica é que, apesar do comportamento de Michael Jackson já ser previsível, de tais aparições não constituírem nenhum fator anormal à sua trajetória nas últimas duas décadas, ele não deveria persistir em tais ações pela sua carreira e pelo bem de sua "imagem".

Ora bolas, ao homem que foi perseguido por rumores de abuso sexual infantil por uma década, acusado e julgado por supostamente ter cometido tais crimes, uma aparição em uma livraria trajando pijamas, logicamente, ocasionará a ruína de sua "imagem". É de imaginar se tal argumentação tão pobre é advinda da ignorância da desinformação (possível) ou simplesmente da desaprovação descabida ou envergonhamento causado pelas atitudes do ídolo (provável). Analisemos então a primeira proposição.

Uma série de eventos em 2002 ajudaram na derrocada da "imagem" já fragilizada de Michael Jackson perante a grande mídia, culminando com o documentário de Martin Bashir no início de 2003. O estrago ali foi tão grande, muito mais pelo cinismo da mídia em geral em distorcer deliberadamente as palavras ditas no especial por Michael do que pelo próprio documentário em si (muitas pessoas, como eu, se tornaram admiradoras do homem Michael Jackson a partir dali), ao ponto de Jackson lançar um documentário-resposta e filmar "Private Home Movies", na tentativa de humanizar-se com o público. No dia após a exibição de "Living With Michael Jackson", as vendas de discos do cantor aumentaram 1000% no Reino Unido, segundo maior mercado fonográfico do mundo. Naquele mesmo ano, quando ele foi preso, Number Ones, coletânea de sucessos com uma gravação inédita, cuja promoção maior (videoclipe) foi suspensa, chegou ao topo da parada britânica vendendo 4 milhões de cópias no globo em pouco mais de um mês. No ano de 2004, antes da absolvição do cantor, ele vendeu cerca de 1.1 milhão de cópias entre CD's, DVD's e VHS's nos Estados Unidos, segundo a Nielsen Soundscan. Mais do que o dobro de popstars como Madonna (473,570 cópias), Mariah Carey (425,890 cópias) e Cher (508,660 cópias). Mais recentemente, Thriller 25th ocupou o posto de 16º álbum mais vendido no mundo em 2008 - 2,3 milhões de cópias vendidas. Trata-se de um relançamento sem preocupações com singles, videoclipes, aparições na TV e shows promocionais, que ficou à frente de discos de inéditas de Beyoncé, Usher e Chris Brown, alguns dos considerados hot acts da atualidade, e não tão atrás de lançamentos como Rihanna (3,7 milhões de cópias) e Madonna (3,2 milhões de cópias), estes devidamente promovidos com singles, clipes e turnês. Prova-se então que o sucesso comercial de Michael Jackson independe de sua imagem pública e consegue ser ainda maior do que o de artistas bem vistos midiaticamente.

A tal preocupação do fã com a imagem do ídolo, provada infundada em relação a um potencial inabalável de vendagens, não seria então, travestida, a preocupação com o olhar do outro em relação ao seu ídolo? A preocupação com a desaprovação ao desconhecido, ao intolerado... ao puro preconceito? Parte dos tais fãs admitem de fato ser este o motivo. Boa parte, se não a totalidade deste grupo, que acusa Jackson de vagabundagem (como se os mesmos tivessem acesso à intimidade do dia-a-dia do Rei do Pop para manterem tão firmemente tal achismo), se consideram fortes candidatos ao cargo de Joe Jackson da vida adulta do cantor, considerando o mesmo tão estúpido por agir desta ou daquela forma, porque eles agiriam dessa e daquela outra maneira, como se fossem eles, diletantes executivos do mercado fonográfico em sua imaginação, as cabeças por trás dos álbuns de vendagens milionárias e turnês de recordes de público não superadas. Afinal, vagabundo é Michael Jackson, e não quem gasta horas por dia, em messageboards, ditando o que o astro deve ou não fazer.

É a desumanização do cantor, aos moldes da midiática, que invade as fanboards ao mesmo tempo que não deixa de mitificar a superestrela pop. O fã quer que Jackson retorne musicalmente, triunfe e se coloque no topo do mundo como nos tempos de Thriller para que ele, junto ao moonwalker, triunfe também. É este um dos aspectos doentios da relação de alguns fãs com seus ídolos, e mais significantemente encontrado entre os fãs de um astro cujos números, performance e postura sempre remeteram a poder. O fã, no entanto, não apenas necessita do retorno musical de Michael Jackson (por isso, em seus acessos durante a longa espera, põe-se a chamá-lo de vagabundo), mas também que o comportamento do astro corresponda às suas expectativas. Ele deve agir de acordo com determinadas "regras" para que os "outros" não falem mal e o fã não se sinta contrariado, ou então até mesmo ultrajado e enojado em seu próprio preconceito, passando a odiar o objeto de sua adoração. Neste jogo de neuroses, uma questão torna-se fundamental: até onde vai o direito dos fãs em suas críticas aos ídolos?

Certamente que os fãs não são obrigados a concordar com todas as ações de seus ídolos. Mas até que ponto distingue-se a crítica da legislação doentia sobre a vida e individualidade do outro? Critica-se Michael Jackson por sair de pijamas e máscara cirúrgica. Compara-se o comportamento dele ao de quem perdeu o senso entre "certo" e "errado". Publicações ironizam quando Jackson entra em seu carro e é fotografado um cartão com bebês que ele provavelmente ganhou de fãs. Faz-se claramente a ponte excêntrico = pedófilo sem grandes preocupações investigativas ou éticas que sejam. E tudo isto porque o astro saiu de pijamas e máscara cirúrgica! O quão atrasados somos!

Este pijama e especialmente esta máscara cirúrgica que, compondo o todo da aparição de Jackson, não constitui ruptura alguma da imagem que ele construiu para si ao longo dos anos. Muito pelo contrário. É de uma força mística que, desnudado em sua vida pessoal com um julgamento por um crime considerado hediondo, Michael Jackson ainda conserve uma mítica sem parâmetros, quando até uma simples saída de casa, de pijamas ou não, é manchete internacional. É o que separa os mitos dos meros mortais e Michael Jackson, megastar larger-than-life e último grande song-and-dance man de uma geração sem ídolos. Charles Chaplin não era Carlitos, ambos se fundiam e se separavam. Michael Jackson é a criação de si mesmo, a obra integrada seja na mítica da vida ou na mítica do palco. Por isso você vê covers do cantor se apresentarem de máscara cirúrgica apesar do mesmo nunca tê-la usado num palco. Um feito como o de Jackson só é comparável ao das estrelas do star system da era de ouro de Hollywood, que tinham um estúdio inteiro ao seu dispor para promover o mito. Com Michael Jackson nunca irá acontecer um episódio à lá Madonna quando, num país onde se aglomeram por Calypso, a chamada Rainha do Pop teve três fãs a esperarem-na no hotel e, quando saiu na janela com os filhos, foi recebida com tudo menos histeria - alguns até debochavam-na gritando "Xuxa". E há fã que defenda que Michael Jackson deve sair e ser mais "social" como Madonna, como se sair na rua sem causar alarde, puramente por ter bebido por boa parte de sua carreira em fontes como Marilyn Monroe e Marlene Dietrich, estas sim mitos de verdade, sem se preocupar com a criação de uma mítica singular e original sendo, por fim, reduzida à diva entre tantas outras, fosse mérito algum.

Mas, deixando o lado artístico-popista da coisa, há ainda quem ache que Michael Jackson deve passar a se portar como uma pessoa "normal", embora me soe extremamente patético e ilusório a idéia de um mega-astro e mega-gênio, artista desde os 5 anos de idade, se portando como o dono da churrascaria da esquina. E o que definiria um comportamento "normal"? Pijamas e máscara cirúrgica por acaso indicam perversidade? A verdadeira perversidade é o ódio à diferença, seja ele travestido de "preocupação" de fã ou não. O que acontece com Michael Jackson lembra-me muito a situação dos homossexuais. Pincela-se uma aceitação por parte da sociedade, fala-se em direitos, mas na TV há ainda aquela velha piada que, em segundos, reduz conquistas importantes ao vazio do riso debochado. O riso despreocupado sem qualquer resquício de humanidade. O riso da imbecilização generalizada. É este o riso o qual Michael Jackson tem sido vítima há décadas. E ao invés de cobrarem da sociedade mais respeito, mais consciência, mais compreensão e mais amor, cobra-se dele que se ajeite neste quadro, que cale seu espírito diferente, que reprima sua própria natureza para não desagradar o público e estas pessoas que tanto o amam e entendem... seus fãs!

Mas graças aos céus que um não-conformista autêntico como Michael Jackson não é de plástico e está acima desta mediocridade estúpida. E a estes fãs, mais preocupados com o novo álbum ou, talvez, com quantas edições asiáticas de Invincible já adquiriram, uma dica: aproveitem o leilão de Jackson que está por vir e arrematem os portões de Neverland! Caso não saibam, neles está inscrito: Deus e meu direito. Vergonha àqueles que pensarem mal disto. Alguém aí falou em Xscape?

domingo, 16 de novembro de 2008

Do Music Hall ao London Palladium: Os 39 Degraus de Hitchcock!

Num teatro de variedades iniciava-se o meu 22º longa-metragem hitchcockiano. Longe de perder a excitação na descoberta de uma nova obra de um dos gênios máximos da sétima arte, mas após Janela Indiscreta, Psicose, Um Corpo Que Cai e tantas outras obras-primas, custava-me acreditar que ainda faltava-me assistir a outro imortal de sua autoria. Faltava-me? Sim! Eu não havia assistido ao clássico Os 39 Degraus!

O herói hitchcockiano neste filme de sua fase britânica, adaptado do livro homônimo de John Buchan, é Richard Hannay. É ele quem entra no teatro logo na primeira cena, mas não é ele a quem somos primeiramente introduzidos. O Sr. Memória, atração da casa, é o primeiro personagem a quem conhecemos. Ele realiza a façanha de aprender 50 novos fatos todos os dias para agregá-los à sua incrível memória enciclopédica. Algumas perguntas banais são realizadas, as quais o Sr. Memória sempre tem a resposta. Aqui vemos Hannay pela primeira vez, sendo agraciado com uma resposta do Sr. Memória. De repente, tiros. Confusão, todos saem apressados. Hannay é curiosamente abordado por uma mulher, que pede para ir à sua casa. E vai!

Já na casa de Hannay, Annabelle, a mulher que lhe pediu abrigo, confessa que está sendo seguida. Hannay de início não acredita, mas confirma a confissão de sua estranha hóspede ao olhar pela janela. Dois homens parados na esquina, iluminados por um poste de luz. Annabelle então lhe conta o que soa como um grande absurdo: é uma espiã que está sendo perseguida por guardar um grande segredo envolvendo a segurança aérea de potências européias! Diz que seria apenas uma questão de dias, ou horas, para que o segredo fosse revelado, o que ela deveria impedir. A polícia não acreditaria mais do que você em mim. Estou lhe dizendo, estes homens agem rápido. Hannay, solícito, pergunta se pode lhe oferecer algo além do abrigo. Ela lhe pede um mapa da Escócia, lugar onde diz haver um homem a quem deve visitar se é que algo poderia ser feito. Informa-lhe também que o chefe dos homens que a seguem é um homem de "muitas caras", mas que pode ser reconhecido por não ter parte do seu dedo mindinho. É um ponto curioso para uma boa ironia hitchcockiana mais tardar no filme.

Um elemento importante na obra posterior de Hitchcock, a personificação do objeto que desempenhará papel-chave na trama, talvez encontre parciamente suas origens neste filme de modo mais superficial. Logo que Annabelle e Hannay chegam na casa deste, o telefone toca. Isto ocorre mais de uma vez, despertando a tensão de Annabelle e dirigindo o espectador ao terror inspirado pelo perigo que o telefonema pode representar (o telefone desempenharia tal função novamente, de modo mais essencial, em Disque M Para Matar).

Depois que Hannay e Annabelle decidem como irão dormir e encerram a conversa (ele no sofá, e ela na cama), a cena é cortada. A próxima imagem que enche a tela é a de uma janela aberta com uma cortina esvoaçante no meio da noite, a indicativa de que a fortaleza de Annabelle foi violada e que ela, portanto, corre perigo. Temos certeza de tal acontecimento quando, na próxima cena, Hannay é acordado por uma Annabelle atordoada que diz: Cuidado Hannay! Você será o próximo!, caindo em seu colo e revelando a faca que lhe foi enfiada nas costas. Quase que instantaneamente o telefone toca e sua imagem ocupa toda a tela, confirmando a importância deste elemento e o temor de Annabelle nas cenas anteriores. A tensão e a confusão de um homem comum que foi a um teatro de variedades e, em poucas horas, se meteu em uma trama de espionagem internacional! Hannay não atende o telefone, mas olha pela janela e vislumbra um homem na cabine de telefone enquanto o outro a vigia. Um flashback de Annabelle é introduzido na mesma cena, relembrando suas revelações do jantar: Isto que lhe faz rir agora, é verdadeiro. Estes homens não vão se deter diante de nada. A câmera exibe a mão de Annabelle, caída, morta, segurando fortemente um papel, que nosso herói hitchcockiano descobre ser o mapa da Escócia, com um local específico circulado. A imagem enevoante de Annabelle e sua voz ressoam: Há um homem na Escócia a quem eu devo visitar se é que algo possa ser feito. A polícia não acreditará em mim mais do que você. Estou lhe dizendo, estes homens agem rápido. E a palavra rápido é repetida, ressaltando e adjetivando como deveria ser a atitude de Hannay diante das circunstâncias. Qual seu próximo passo? Ir até a Escócia, é claro!

Mas antes de partir, somos brindados com mais uma manifestação do humor do Mestre do Suspense, como se para aliviarmo-nos da tensão sofrida na inesperada cena da morte de Annabelle e prepararmo-nos para a o desenrolar da conspiração hitchcockiana. Hannay, preocupado em deixar seu apartamento, encontra o leiteiro e pede-lhe ajuda. Confidencia a ele que está envolvido em uma trama de espionagem com uma mulher assassinada em seu apartamento, ao que o leiteiro toma como uma boa gozação. Hannay então conta que "na verdade", ele veio "fazer uma visita" à uma mulher casada no primeiro andar, e que os dois rapazes que ele estavam do outro lado da rua, razão de seu temor em deixar o prédio, eram o marido e o irmão de tal mulher. Por que você não disse logo? Perguntou o leiteiro. Hannay troca de roupas com este e finalmente parte.

Já em sua viagem de trem, ele descobre que seu nome é procurado pelo assassinato de Annabelle. Policiais entram no trem. Hannay se refugia em uma cabine e beija inesperadamente uma loira, a quem confidencia sua identidade acreditando que o ajudará. Mas em Madeleine Carroll não há resquício de Eva Marie Saint! E logo que os policiais entram na cabine pedindo informações, Hannay é denunciado e pula do trem em movimento!

Nas próximas seqüências, ele encontrará abrigo em uma casa no campo e fugirá dos policiais, encontrando supostamente a casa que procurava. Nela, se torna convidado de uma reunião do dono, o Professor Jordan, anfitrião a quem Annabelle certamente procurava, que lhe recebe com um sombrio sorriso antipático. Discutindo sobre o seu envolvimento na trama, Hannay lhe confidencia que o chefe dos homens que o seguiram anteriormente não tinha uma parte do dedo mindinho... exatamente a parte que falta no dedo mindinho de seu anfitrião! Uma excelente ironia hitchcockiana que deixa nosso herói encurralado na sala de seu maior inimigo!

Fugindo novamente da polícia, Hannay é confundido como político e convidado a dar discurso. Aqui, outro ponto brilhante na ironia do homem inocente sendo perseguido, temática recorrente na obra de Hitchcock e evidenciada nesta fala de Hannay: "Eu sei como é sentir-se solitário e indefeso e ter todo o mundo contra ti!" Um sucesso com a platéia, mas não com os policiais que o encontram logo ao final do discurso! Não apenas os policiais mas também Pamela, a loira denunciante do trem, que também terá de prestar depoimento à polícia. A "polícia", no entanto, nada mais é que o temido espião/professor Jordan... logo que Hannay descobre isto, e é algemado à Pamela, aproveita a aparição do rebanho de ovelhas que impossibilitam o carro da "polícia" de prosseguir e foge!

Hannay e Pamela algemados juntos, um dos pontos emblemáticos do filme. Hitchcock deixou os dois atores juntos, algemados, logo que foram apresentados um ao outro para que pudessem se conhecer melhor. Sua tática funcionou, já que Donat e Carroll apresentam uma química inquestionável na tela. Carroll como Pamela demonstra-se incrivelmente teimosa em não acreditar na inocência de nosso herói, tentando pedir socorro para libertar-se do suposto assassino até quando ambos, já instalados em um quarto de hotel, fingem ser casados. Passam a noite juntos, ainda algemados. Talvez o momento mais sensual do filme aconteça neste momento, quando Pamela tira suas meias e a tela é preenchida com a visão de suas pernas nuas, uma delas encostada na mão algemada de Hannay. Durante o sono deste, Pamela consegue se livrar das algemas, mas ao sair do quarto identifica os dois homens que os levavam à "polícia" no andar abaixo, ao telefone. Ouvindo sua conversa, ela finalmente tem a prova da inocência de Hannay! Quando este acorda, ela lhe conta: alguém envolvido na trama estará no London Palladium!

Pamela vai à polícia e procura ajuda em vão enquanto Hannay chega ao Palladium. Os policiais a seguem até o local: a prisão de Hannay já é certa! O que haveria no Palladium, afinal? De repente, uma música começa. Hannay percebe que é a mesma música que assobiou em momentos anteriores no filme. E no palco adentra... o Sr. Memória! Ao localizar o professor Jordan pelo binóculo em um camarote, ele finalmente descobre: o Sr. Memória era quem sabia o segredo! Somos transportados simbolicamente ao início do filme na atmosfera fascinante desta cena final. Hannay corre até o meio da platéia e berra: O que são os 39 degraus? Responda-me!

E o Sr. Memória diz: Os 39 degraus é uma organização de espiões colhendo informações em favor dos governos estrangeiros... até ser acertado por um tiro disparado pelo Professor Jordan! Na cena final, a absolvição de Hannay, que tem a polícia ouvindo diretamente do Sr. Memória o tão importante segredo - uma fórmula matemática a respeito de um combustível que permitirá às máquinas funcionarem sem fazer barulho. E a câmera aproxima-se da mão algemada de Hannay encontrando-se com a mão de Pamela... finalmente separadas pela força e agora unidas apenas pela vontade!

Nesta obra crucial para a carreira de Hitchcock - ela que lhe traria fama em solo norte-americano -, concebida há mais de 70 anos, não há espaço para defeitos. Seus menos de 90 minutos são preenchidos com reviravoltas fantásticas num roteiro meticulosamente elaborado e sua trama prenuncia as temáticas de futuros filmes do Mestre do Suspense, em especial, Intriga Internacional. Talvez o único deslize de Hitchcock tenha sido sua aparição marca-registrada jogando lixo no chão. No futuro, ele se empenharia em cameos mais politicamente corretos!



Shame on you, Hitch!

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Sorriso de Cabíria

Julguei-me afortunado demais! Que delirante piada! Pobre de mim e de minha santa ignorância! É por conta desses sentimentos repentinos de letargia existencial e comodidade que adquirimos quando não há algo de significante para nos ferir a alma. E que aqui seja perdoada minha ultrasensibilidade casimira-di-abriana. Veja, também conservo saudades inestimáveis da "aurora da minha vida", afinal, foi nela o único momento em que permitiste-me a felicidade, lembras? Desde então vivo das migalhas da memória, conservando as fotos, vídeos e músicas que me permitam a continuar inspirando e expirando e constatar esta loucura hilariante: já fui feliz! Que delírio diabólico! Mais débil ainda é imaginar quantas tentativas obviamente frustradas de alcançar tal felicidade novamente! Por todos os santos, que besta fui todos estes anos! Que delirante besta idealista! Que vergonha imaginar que, em algum momento, eu piamente acreditei poder ser tão feliz quanto na infância! Envergonha-me até em pensamento cogitar tal possibilidade! Possibilidade esta tão vazia quanto o seu coração, afinal, não foi tu quem me impedistes de ser feliz enquanto tive chances? E eu, tão consciente, tão estupidamente consciente de meus nobres valores acreditei que tu nada tinhas a ver com minha óbvia infelicidade, que se ela existia era puramente por minha fraqueza e culpa exclusivas. Nesta minha tese tão intelectual, no entanto, fugiu-me acrescentar que toda a repressão da suposta felicidade que eu tão bestamente acreditei poder alcançar um dia, tinha uma única e clara razão: você. E que tu digas agora que é fácil, é óbvio culpar-te, é o mais simples, é o mais cômodo. Bom, neste caso não é. Foi necessário que tu, por finalmente, triunfalmente destruísse-me, para que me desse conta das vãs tentativas de nobreza de espírito que tive em tentar isentar-te de toda a culpa. Poderias negar agora que tentei amar-te mesmo quando tu fazias escárnio dos meus fracassos em me conectar com o que eu risivelmente, com os olhos a brilhar, denominava "humanidade"? Dizem que se ensina com ações e não com palavras. Agradeço então por ter me passado corretamente a lição prática de que o mundo é uma pocilga com gente que só faz sofrer. Tivesse aprendido contigo desde cedo tal valiosa lição, com prazer evitaria o contato com todos aqueles que, em um momento ou outro, declarei ao mundo conhecer como "amigos". E tu rias de tais "amigos"! Veja só como estavas certa! Para eles fugia de tuas garras, tão infantilmente indefeso que não notava as garras dos mesmos! Acabava-me ainda mais abatido por neles ter tão fielmente acreditado, enquanto em ti nunca acreditei. Nunca acreditei? Talvez sim, nos tempos mais pacientes em que quase hipnoticamente tentei julgar sua pura maldade como superproteção. Mas maldade é apenas maldade, não? Seja ela quando eu persistentemente forçava-me, quase tombando nas minhas próprias trevas, a olhar o céu e contemplar as tais coisas que embelezavam o mundo, mas tu não deixavas nem um lampejo de "alegria" triunfar. Ou quando eu, tão inocentemente perdoava comigo mesmo a tua última tentativa de quebrar minha força vital e tu retornavas, mais forte ainda, mais determinada à minha inevitável destruição. Deve ser de uma satânica felicidade pra ti, quando retorce mais e mais o que sobra de minha alma, o proibido mas delicioso pensamento de magoar a quem tu comprastes, não é mesmo? Talvez, na sua mente doentia, isso dê legitimidade à escravidão que tu me submetestes por completo. Mas não perdemos mais tempo com suposições, lamentações e pedidos de oração. Entenda, só escrevo isto pois quero te dar os meus sinceros parabéns. São poucos os que realizam o que determinam na vida e tu, minha cara, realizou um feito colossal. Marcou-me pra vida toda. Só queria que soubesse que, no final, tu venceu. Teu triunfo é a minha miséria, mas isto esteve claro desde sempre. E não preocupe-se em impedir que minha antiga consciência humanística retorne, matando por fim tua mais perfeita criação: o monstro de cólera. Tantos outros me ensinaram quando tiravam-me pedaços de alma, mas foi tu quem por fim me convenceu. Não existe mais sorriso de Cabíria para mim.

sábado, 18 de outubro de 2008

100 Anos Dela

"Sempre tive vontade de vencer. Podia sentir isso ao assar cookies. Tinham de ser os melhores cookies que alguém já assou." - Bette Davis

Terminada a projeção, o palco se iluminava e ela, pé ante pé, aproximava-se da platéia extasiada. "What a dump!", finalmente disse, depois de colocar o cigarro em cima da mesa improvisada, para os aplausos frenéticos. "What a dump!" era a célebre frase de um dos seus filmes, discutida mais tarde por Elizabeth Taylor em outra célebre cena de Quem Tem Medo de Virginia Woolf?. Com esta frase, era dado início à parte "In Person" do Bette Davis In Person and On Film, espetáculo que percorreu os Estados Unidos, Europa e Austrália nos anos 70, encantando espectadores de cinema com a presença de uma estrela única do firmamento hollywoodiano: Bette Davis.

Ruth Elizabeth Davis começou sua carreira no cinema com uma definitiva dificuldade: sua falta total de sex appeal. Embora seus belíssimos olhos azuis tenham sido imortalizados no hit oitentista de Kim Carnes, em tempos de Jean Harlow, Bette Davis não era nenhum ideal de beleza. Contratada pela Universal, ela estreou com o insosso A Irmã Má, em 1931, contracenando ao lado de Humphrey Bogart. Resultado: ambos foram despedidos do estúdio. "Havia uma lenda naquela época de que, se você fosse despedido da Universal, você realmente iria chegar em algum lugar", ela diria anos depois. Chegou então o contrato com a Warner Bros. Mas ainda fazendo um punhado de porcarias, Bette solicitou que a Warner a permitisse fazer um filme para a RKO. O resultado foi o primeiro grande triunfo de sua fantástica carreira: Escravos do Desejo (ou Servidão Humana) foi lançado em 1934 em meio a controvérsias. Na fita, Bette Davis interpretava Mildred Rogers, uma garçonete que leva o personagem de Leslie Howard à ruína. A primeira grande "bitch" do cinema! Bette esperava ser indicada ao Oscar pela sua performance, mas quando sua indicação oficial foi negada, houve uma tentativa de colocá-la como "write-in" (os jurados poderiam votar em quem quisessem, estando o ator/atriz indicado ou não). De todo modo, Bette não venceu, mas ganhou o prêmio de Melhor Atriz em 1936 por Perigosa, um prêmio de "consolação" por Escravos. Sua fama estava firmada, mas o alcance ao estrelato absoluto - e ao topo dos box-offices - viria com Jezebel, filme de 1938 que lhe renderia seu segundo Oscar. Dirigido por William Wyler, Bette contracena ao lado de Henry Fonda como uma jovem e ousada sulista. A partir de 1940, Bette Davis teria cinco indicações seguidas ao Oscar de Melhor Atriz; no ano de E o Vento Levou e O Mágico de Oz, ela foi indicada ao prêmio pelo papel de Judith, uma socialite que luta pela felicidade sabendo que tem apenas meses de vida no clássico Vitória Amarga (1939); em 1941, a indicação seria por A Carta, outra parceria com William Wyler; em 1942, seria a vez de Pérfida, em mais uma colaboração com William Wyler, e em 1943 por Charlotte, no seu então maior sucesso de bilheteria, A Estranha Passageira. Mais uma indicação estaria a caminho em 1945 pelo filme Vaidosa, em que Bette contracenou ao lado de Claude Rains.

A carreira de Davis sofreria um declínio no final dos anos 40, com filmes que fracassaram no box office ou foram detonados pelos críticos como Uma Vida Roubada, Que o Céu a Condene e Beyond The Forest, lançado no Brasil sob o curioso título A Filha de Satanás. Depois deste último, em 1949, Bette Davis saiu da Warner Bros. Muitos apostavam no fim da carreira da atriz, mas eles teriam de "apertar os cintos" para a tempestade que estava por vir!

Em 1950, Bette Davis viveu a atriz de teatro Margo Channing, no altamente celebrado clássico A Malvada, em o que muitos consideram a performance de sua carreira. Com um roteiro impressionante e um elenco impecável, o filme foi indicado a 14 Oscars, vencendo 6, incluindo Melhor Filme. Bette, no entanto, perdeu o prêmio de Melhor Atriz para Judy Holliday, talvez um dos maiores roubos da história da Academia.

Apesar de seu retorno espetacular com Malvada, Bette Davis não alcançaria novamente o sucesso no cinema como o teve nos anos 40. Ela estrelaria ainda em filmes como Lágrimas Amargas (1952), pelo qual recebeu mais uma indicação ao Oscar, A Rainha Tirana (1955), onde retornaria ao papel da Rainha Elizabeth - o qual havia interpretado 16 anos antes em Meu Reino Por um Amor (1939) - e O Estranho Caso do Conde (1959).

Em 61, Bette se reúne ao lendário diretor Frank Capra (A Felicidade Não Se Compra, A Mulher Faz o Homem) no último filme deste: Dama Por Um Dia. Mas seria em 1962 que ela encontraria mais um grande triunfo no cinema, quando o diretor Robert Aldrich a uniu com sua antiga rival Joan Crawford, no filme de suspense-horror O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, onde ela interpretou a grotesca personagem do título, uma velha que acredita ainda poder reviver o sucesso musical de sua infância, enquanto amedronta e tortura sua irmã em cadeiras de rodas, interpretada por Joan. Como conta Bette Davis em seu livro This 'N' That, Joan Crawford usou de sua influência na Academia para fazer com que ela não levasse a estatueta - seria seu 3º Oscar. Joan teria ligado para todas as indicadas e se comprometido a receber o prêmio por elas caso não pudessem atender à cerimônia. Naquele ano, Anne Bancroft ganhou e Joan aceitou o prêmio pela atriz. "Eu queria ser a primeira atriz a ganhar 3 Oscars, mas Katharine Hepburn conseguiu antes. Na verdade ela não conseguiu. A Sra. Hepburn só ganhou metade do 3º Oscar. Se tivessem me dado meio Oscar, eu jogaria de volta na cara deles," disse Bette sobre o prêmio de Melhor Atriz que Hepburn dividiu com Streisand.

Com os custos de Baby Jane sendo cobertos logo na sua semana de estréia, Robert Aldrich já visualizava outro veículo para suas duas grandes estrelas brilharem novamente. Com a Maldade na Alma, de 64, foi este filme. Na verdade, era para ter sido. Crawford ficou doente durante as filmagens e teve de ser substituída por Olivia de Havilland, a eterna Melanie de E o Vento Levou. Com a Maldade na Alma rendeu 7 indicações ao Oscar e ajudou a revitalizar a carreira de Bette no cinema, que iria protagonizar filmes como Nas Garras do Ódio, Alguém Morreu em Meu Lugar e O Aniversário nos anos 60, e Madame Sin, Morte Sobre o Nilo e Perigo na Montanha Enfeitiçada nos anos 70.

Em 83, a atriz foi diagnosticada com câncer de mama e sofreu um derrame. Os médicos apostavam que ela nunca trabalharia novamente. "Vocês não conhecem Bette Davis!", disse um amigo seu aos médicos. Seus anos finais foram de homenagens e, é claro, muito trabalho. Ela estrelaria ainda o filme indicado ao Oscar, As Baleias de Agosto, ao lado de outras duas lendas do cinema: Lillian Gish e Vincent Price. Lançaria o livro de memórias This 'N' That contando sua história de recuperação após seu derrame de 83, entre outros fatos curiosos de sua vida, incluindo uma carta à sua filha que, durante a recuperação da mãe, lançou um livro sensacionalista à lá Christina Crawford falando sobre os supostos abusos de personalidade da atriz. Bette disse que, diferente do seu derrame, desta traição ela nunca se recuperaria.

Em 1989, Davis descobriu que seu câncer havia retornado. Ela nos deixaria no dia 6 de outubro daquele ano. Na sua sepultura, uma frase que o diretor Joseph Mankiewicz havia dito a ela nos anos 50 e que ela, em várias entrevistas, orgulhosamente citou: "Ela fez da forma difícil/She did it the hard way." Seu legado não nos permite mentir: valeu à pena, Bette!

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Morre Brick Pollitt

Paul Newman morreu, pensei. Semaninhas negras estas. De adeus do Dean, Rock Hudson, Miss Bette Davis. Fellini no 31. Sad, sad, sad. E minha Hollywood dos sonhos, glamour do preto-e-branco e Technicolor, de repente... perdida. Morreu Paul Newman. Como morreram tantos. Brando, Kerr, Monroe, Crawford, Garbo, Dietrich, Chaplin, Bogart, Stewart, Grant, Karloff, Astaire, Olivier, Gene, Grace, Audrey, Katharine, Garland. Tantos. E Paul Newman morre. Paul Newman da Cor do Dinheiro, do golpe de mestre, o cool hand luke, o Butch Cassidy, o do Inferno na Torre. Todos os Newmans que não conheci. Morreu Brick Pollitt, pensei. Sim, morreu Brick Pollitt. Brick Pollitt! There must be some mistake. O Pollitt daqueles 108 minutos não morre... ele bebe e luta, briga, chora porque can't stand a falsidade. Como poderia ele morrer? Mas assim o fez. Não em acidente como Dean ou Grace, nem de causas naturais como Katharine. Mas do maldito câncer, que nos levou Davis e Audrey. Sim, só o câncer poderia abater Brick Pollitt e nos privar de sua alma dean-cliftiana. Quantas vezes Pollitt esteve no meu televisor! E por quantos anos! Foi um dos primeiros da golden age que conheci. Lembro da mão trêmula depositando o disquinho na bandeja daquele tijolo velho de DVD, a ânsia pra ver a tão-celebrada peça de Tennesse Williams que levou 6 indicações ao Oscar de 59. E o esforço! A mesada guardada, às moedas. A pesquisa longa e extensa em torno dos clássicos hollywoodianos pra dizer "sim, é este que quero!". Sim, Pollitt, era a ti que queria ver! Por certas razões e muitas outras. Afinal, Liz Taylor é uma diva. E o filme começava. Quantas vezes vi e revi aquela cena inicial, você, coitado, bêbado, frustrado, completamente desgraçado pela vida, tentando ser o atleta que já foi um dia ao som do "Go, go Pollitt! Brick Pollitt" que obviamente só poderia ser real na sua cabeça embriagada. E depois você, já engessado (entendemos, você se machucou ao pular os obstáculos na noite anterior), deitado e bebendo pra variar, pensando e doendo por dentro e esperando Elizabeth Taylor entrar em cena. E quando ela entra, com toda sua divindade, a tela se transforma em ringue para os teus olhos azuis e os olhos violeta dela. Que bela luta! Até quando vocês dois resolvem se pegar, é claro, não do modo que Maggie-Liz Taylor deseja. Não estou vivendo com você, apenas ocupamos a mesma jaula! berrava Liz Taylor. Depois chegava Big Daddy, o seu pai que foi o xerife de Vidas Amargas, em meio à pompa organizada pela mulher daquele seu irmão filho-da-mãe, que fez Nasce Uma Estrela e aquele filme com a Dietrich e o Jimmy Stewart que vi outro dia. Belo canalha ele, saquei de cara! Toda a festa porque Big Daddy voltou dos exames médicos que fez mas, para a decepção do casal-desgraça que levou seus no-neck-monsters/filhos para recepcionar Big Daddy, os exames confirmaram que o velho irá viver por muitos anos. Salve Big Daddy! Mas Liz Taylor que sempre foi pobre a vida inteira se preocupa com o teu irmão e sua esposinha, afinal, os dois podem ganhar a confiança da Big Momma e conseguir que o império dirigido por Big Daddy seja, após a morte deste, unicamente deles e dos no-neck-monsters. Você, como boa alma que é, está pouco se lixando pro Big Daddy e pro dinheiro dele. Falam até em te internar na clínica pra alcóolatras Rainbow Hill e você, bebendo, faz um brinde to Rainbow Hill! Logo vem Big Momma se intrometer na privacidade da suíte-sem-amor sua e de Liz Taylor e dar palpites inxeridos sobre sua vida de casado, o que causa um oportuno estranhamento em mim, não pelos palpites que parecem típicos da figura ingênua de Big Momma, mas quando penso nos dois anos que levei pra reconhecê-la na figura funesta de Mrs. Danvers no hitchcockiano Rebecca. De todo modo, agora Liz Taylor quer falar e você quer dar nela uma muletada. Ela quer falar sobre Skipper porque it's got to be told! Mas não, ela não vai falar, simplesmente não pode! Big Daddy exige respostas... afinal, por que tu bebes tanto? Mandasity tu dizes. Sim, a falsidade, que não foi uma nem outra vez... e eis que Liz Taylor entra de novo e explicas o que tu, talvez, tão magoado por razões explícitas e implícitas de Tennessse Williams, não quisestes ouvir antes. Ora, Brick, Skipper não havia o traído então. Morreu pedindo por ti, por tua ajuda... tu o ignorastes, Brick! E agora restavam as lágrimas, e o som daquele telefone tocando, Skipper, que tu não atendestes... Entende agora por que eu bebo? O nojo da falsidade na verdade é o nojo de mim mesmo! E quando bebo não ouço mais o som daquele telefone tocando! E na agonia dos teus olhos azuis, Brick Pollitt, naquele momento, tornaste-te um Deus da sétima arte. Sim Brick, ali entendi perfeitamente o que sentias e até o que sentias e não dizias. Almas partilhando uma inevitável dor existencial! Quão envaidecido fiquei ao me identificar em ti, personagem tennesseewilliamno! Tu passou a ser freqüente nas minhas sessões repeteco das sextas-feiras colegiais. Certas vezes o sono me abatia, te perdia por momentos em meio aos meus devaneios pré-meia-noite, mas ao acordar tu estavas lá, a dor de sempre tão conhecida, a berrar worthless worthless quebrando as porcarias que o Big Daddy achou que podiam comprar teu amor. Worthless! Mas no gran finale - não da película, mas de la vita - tiveste que morrer... e eu entendo, saco tudo sobre mortalidade, sei que também irei para aquelas bandas um dia, mas não falemos de tão desagradável noção. Tua grande alma não vai para debaixo da terra, e é tudo o que importa. Brick Pollitt, 20 e poucos, talvez 30, olhos azuis, confuso mas não covarde, um rebelde existencial da MGM de 58. Até que a terra nos engula também, nós, que somos tão desgraçados e tresloucados como você (by the name of love and not mandasity), estaremos respirando esta bela alma que plantaste no cinema hollywoodiano e, mais importante, em nossos espíritos. May you rest in peace, Pollitt!