sexta-feira, 29 de agosto de 2008

E Então Começava 1983...

"Michael Jackson, por que custou tanto a aparecer Michael Jackson? Os deuses desapareceram há milênios, o grande Pã morreu ninguém se lembra mais quando. As religiões, sentindo-se solitárias, abraçaram-se ecumenicamente, pórem nenhuma apresentou um fato novo, de importância cósmica. Foi preciso que um útero... Não. Michael Jackson, o divino, nasceu da barriga de um meteoro ou da pura luz ou das entranhas do Fatum. Tinha que nascer diferente, para crescer diferente e seduzir diferente a humanidade. O disco de MJ substitui plenamente as Epístolas de São Pedro, São Paulo e São Tiago, e até a novela das 8. Colossenses, Tessalonicenses, Coríntios (e corintianos também), detende-vos e escutai a Voz que vem de Michael. A voz e os gestos. Escutai os gestos, as lantejoulas pretas, a cabeleira incendiada no comercial de tevê, escutai o lobisomem em que ele se transformou."
Carlos Drummond de Andrade, Jornal do Brasil, 19/07/1984.

Alguns momentos glorificam as carreiras de todo grande talento. O gol impossível, a atuação impecável. Michael Jackson já tinha tudo isso e muito mais em 1982. Ele já era, em realidade, um superstar internacional. Contava já com seus trunfos da infância - a icônica imagem que temos na cabeça dele, menininho, com seu grande afro e seus quatro irmãos, entretendo multidões com seus ABC, I Want You Back, I'll Be There e tantos outros sucessos - e com a recente consagração do álbum Off The Wall, disco este que no início dos anos 80 já liderava como o mais vendido por um negro em toda a história da indústria fonográfica. Jackson, no entanto, não ficou satisfeito. A tal premiação Grammy indicou Wall para apenas duas categorias, o que o deixou extremamente desapontado. Sua resposta mental para tal esnobismo da premiação, como registrada no livro Moonwalk, seria a profecia mais acertada da história da indústria fonográfica: "O próximo eles não vão poder ignorar".

Quando Michael Jackson retornou com um novo LP nas lojas em 1º de dezembro de 1982, recebeu críticas favoráveis. Esperava-se que o disco vendesse consideravelmente bem, embora muitos executivos duvidassem de um sucesso à lá Off The Wall, que já era recorde. A estratégia de lançar o compacto de The Girl Is Mine antecipadamente surtiu efeito: nos Estados Unidos, o dueto com Paul McCartney chegou ao no. 2 entre as 100 mais tocadas, recebendo disco de platina por 1 milhão de cópias vendidas. Com isto, Thriller já catapultou imediatamente para a 11ª posição dos 200 discos mais vendidos em solo norte-americano, segundo a Billboard.

E então começava o ano de 1983. Depois dele, nada mais seria o mesmo no mundo do entretenimento, na indústria fonográfica, na recém-criada MTV, nos noticiários, nas revistas de fofoca, nas conversas de salão, no recreio da escola... pois ele, na verdade, agora era Ele. Michael Jackson tomou o ano de 1983 para si e sua grandeza, e nele deixou de ser apenas um superstar: ele era agora o superlativo Deus-mítico da cultura pop.

O Big Ben começou em janeiro de 83: era lançada nas rádios o segundo single do novo disco de Jackson, Billie Jean. Com uma extraordinária batida, a letra revelava um Michael suplicante em explicar que Jean não era sua amante e que seu bebê não era seu filho, um manifesto musical que invadiu as pistas de dança e se consagrou como o maior sucesso de sua carreira: foram 7 semanas em primeiro lugar na terra do Tio Sam e 6 meses entre as 100 mais tocadas, rendendo a ele mais um disco de platina pelo single. Grande parte do seu sucesso pode ser atribuído a outro fator da conquista-Jackson de 1983.

A MTV era um canal com pouco mais de 2 anos de idade quando Michael emplacava os hits de Thriller. Especializada em exibir videoclipes, apresentavam também uma restrição: não exibiam videoclipes de artistas negros. Eles seriam obrigados a quebrar sua política racista em pouco tempo. Michael Jackson, encantado com o formato do videoclipe, levou-o a outro patamar. Billie Jean foi provavelmente o primeiro clipe roteirizado da história, e suas cenas marcantes - o chão que acendia com a magia da dança de Jackson - atreladas ao grande hit do momento marcaram com grandeza o início da Michael-mania em todo o mundo.

O próximo compacto, Beat It, não tardou a ser lançado. Chegou às lojas em fevereiro e escalou lentamente até chegar ao top 10 da Billboard (onde permaneceu por 10 semanas) e ao topo do chart por 3 semanas consecutivas. Michael Jackson agora igualava o sucesso de Thriller ao de Off The Wall: ambos emplacaram dois singles em #1 na parada americana.

Sua escalada ao posto de Deus do Pop teve outro ponto crucial em Beat It: seu segundo videoclipe. Nele, Michael esbanja energia ao impedir o confronto de duas gangues rivais e promover uma grande dança coletiva. Com Billie Jean e Beat It, Michael Jackson popularizou mundialmente o formato do videoclipe que seria agora um fator indispensável na campanha promocional de todo artista pop/rock. Conseqüentemente, a conquista da MTV como canal se deveu justamente ao pioneirismo artístico de Jackson.

Em 16 de maio de 1983, Michael Jackson dava seu penúltimo passo em direção ao mito de si mesmo: foi a noite em que milhões de americanos acompanharam uma das maiores performances da história da dança. O evento foi o Motown 25, show que comemoraria os 25 anos da gravadora Motown com apresentações de vários artistas, incluindo de Michael Jackson como membro do The Jacksons. Ao término da performance com os irmãos, Michael exorciza o seu passado - "Estes foram os dias antigos. Eu realmente amo essas canções..." - e dá o passo em direção à sua glória de mito-mor da história do entretenimento - "Mas o que eu gosto mesmo são as músicas novas" -; começavam as batidas de Billie Jean e Michael, movendo-se ferozmente, incultaria no inconsciente popular sua imagem mágica, misteriosa e fascinante, com um popismo comparado apenas ao de Carlitos: sua luva brilhante, meias reluzentes, sapatos mocassim, o chapéu preto... todos componentes da força sobrenatural que, naquela noite, aterrorizou 50 milhões de lares com sua inexplicável genialidade. No meio da apresentação, como se flutuasse pelo ar, Michael oficiamente se transforma em mito ao realizar seu "moonwalk". No dia seguinte, o mito recém-nascido é reconhecido pelos mitos a quem admirava: Fred Astaire liga para Michael Jackson e diz que gravou sua apresentação e assistiu-a duas vezes pela manhã. "Você é uma dançarino infernal, Michael!", disse um dos maiores expoentes dos filmes musicais. Mais tarde, ele e Gene Kelly dariam uma "passada" na casa de Michael para "baterem um papo".

Michael Jackson era agora maior do que a vida. Assim como Thriller. Neste momento, o álbum firmou-se em no. 1 entre os 200 mais vendidos nos Estados Unidos, onde permaneceu por 17 semanas consecutivas. Depois, oscilaria entre a segunda e terceira colocação, retornando novamente ao topo, onde permaneceria por mais 20 semanas, totalizando 37 semanas - 9 meses e 1 semana! - como o disco mais vendido no mercado mais importante da indústria fonográfica! A ânsia por Michael Jackson, que vendia 1 milhão de "Thriller"s por semana só em seu país, fez com que até Off The Wall, disco de 79, retornasse timidamente aos 200 mais vendidos, até conquistar uma respeitável posição #44, adicionando 49 semanas ao seu chart-run americano.

E o enluvado bombardeava as rádios, criando hits Top 10 instantâneos: Wanna Be Startin' Something (a base para o hit-mor de 2008, Please Don't Stop The Music), Human Nature e P.Y.T. (Pretty Young Thing).

Ao término do ano, Jackson conquistaria mais um hit no. 1 com o lançamento de seu dueto com Paul McCartney para o álbum deste: Say, Say, Say. A faixa ganharia ainda um videoclipe com ambos, mas nada perto do que estaria por vir.

A CBS, gravadora de Jackson, satisfeita com os lucros astronômicos e imprevisíveis gerados pela adoração em massa à Thriller, recusou-se a financiar o próximo - e último - videoclipe do projeto. Michael Jackson então desembolsou 500.000 dólares e contratou John Landis, o diretor de Um Lobisomem Americano em Londres.

Em 2 de dezembro de 1983, a MTV - que, desta vez, pagou pela exibição - exibia Thriller, o curta-metragem de 13 minutos pelo qual Michael Jackson estaria sempre associado, sua última empreitada mítica do ano de 83. Um tributo aos filmes de horror, Jackson nos brinda com um dos momentos mais inesquecíveis já colocados em filme: sua namorada, procurando uma forma de fugir dos mortos-vivos que os cercam, olha para Michael e percebe que ele também é um! A sequência de dança que se segue é um irresistível e único momento da cultura pop; é a coreografia que todos nós, em qualquer parte do mundo, podemos identificar como a que consagrou o curta-metragem de Thriller! Como Jackson bancou os custos da obra, pôde ver seu investimento dar frutos com o lançamento do home-video The Making of Thriller, até 1988 o home-video mais vendido de todos os tempos, com 9 milhões de cópias comercializadas (o recorde foi apenas batido por Moonwalker... home-video do próprio Michael Jackson)!

Em 1 ano, Michael Jackson popularizou algumas das canções mais memoráveis da história da música pop, redefiniu o conceito de videoclipe, inovou a dança com surpreendente genialidade e cruzou a linha entre mortais e deuses, transformando-se para sempre em um ícone inigualável da cultura popular nos séculos XX e XXI.

Em 1984, Michael colheu os louros de Thriller ao ganhar 8 prêmios Grammy, vingando-se finalmente da premiação. Envolveu-se no famoso acidente do comercial da Pepsi, onde sofreu queimaduras no couro cabeludo, e percorreu cidades americanas com Victory, sua muito-celebrada turnê com os irmãos. Recebeu 20 discos de platina por Thriller nos Estados Unidos e uma homenagem oficial do Guiness Book, que introduziu Michael Jackson e seu Thriller como o álbum mais vendido da história da música!

Hoje Michael Jackson, a quem tanto amo por sua pessoa extraordinária, completa 50 anos e a ele aplaudemos por agraciar nosso mundo com a beleza de seu talento extraordinário! Em 2008, comemoramos o 25º aniversário do ano que mudou a carreira do Rei do Pop e vislumbramos a vitalidade da sua obra, que atravessa décadas sem perder a essência da supragenialidade daquele menino de Indiana, que ainda encanta a quem, boquiaberto, assiste ao seu "moonwalk" pela primeira vez ou aos seus videoclipes visionários!

A edição especial de Thriller, lançada no início deste ano, é um dos álbuns mais bem-sucedidos de 2008. Em tempos de download, o disco de 25 anos ultrapassou as 2 milhões de cópias vendidas sem qualquer dedo de Michael Jackson na publicidade do mesmo. Suas vendas ultrapassaram até mesmo os lançamentos de Mariah Carey e Usher, considerados dois dos maiores popstars do momento, e Jackson se encontra apenas pouco mais de 500.000 cópias atrás de Madonna que, em seu usual aparato de marketing, já conta com dois singles/vídeos no mercado e uma turnê mundial para apoiar seu álbum. É evidente a imensabilidade do impacto de Michael Jackson e seu talento, tão fortemente cravado em nossa cultura que nem sua imagem altamente difamada midiaticamente pôde arruinar.

"A grande música dura para sempre,"
Michael Jackson disse em uma entrevista há três anos atrás. Sua obra nos prova isso, a cada dia mais. Parabéns Michael pela grandeza da sua pessoa e do seu talento! São seres humanos como você que iluminam nossos corações e nos ensinam os verdadeiros valores desta vida. Este é o legado que teremos orgulho em preservar!

sábado, 16 de agosto de 2008

Madonna e o Fascínio da Imagem

“Os grandes artistas populares são alquimistas. Eles pegam materiais básicos – uma piada tola, uma estória banal, uma letra trivial – e transmutam-nos em ouro. Seus imitadores – os que se encontram abaixo da grandeza – são conjuradores: seus dons são postos ao serviço da ilusão. Com astúcia eles conseguem, ocasionalmente, nos persuadir de que aprimoraram o truque; mas é apenas isto – um truque – e o ouro que produzem não passa de uma imitação barata.” – Christopher Finch, “Rainbow: The Stormy Life of Judy Garland”.

Certamente quem acompanha as notícias do mundo do entretenimento está a par das comemorações dos 50 anos de Madonna e Michael Jackson. É evidente, no entanto, o intenso favoritismo da mídia a tal chamada Rainha do Pop. Em artigos recheados de cinismo e deboche, os auto-intitulados "jornalistas" desfilam parágrafos de oferendas àquela que, só Deus sabe onde, supostamente recheou nosso mundo com uma avalanche de criatividade e genialidade. Jackson, é claro, é citado como o que "perdeu o rumo" ou "enlouqueceu" (tais "adjetivos" apenas nos artigos dos "jornalistas" mais educados, obviamente).

Como o dono deste blog prefere a sinceridade ao contrário da arrogância infantilizada dos tais fãs da Madonna, revelo: não gosto de Madonna, por inúmeras razões. Entre elas, a desta endeusação insana do nada. Esquecemos mitos como Judy Garland, mas idolatramos o tão-chamado "talento" de Madonna. Que Deus nos perdoe!

Entretanto, não causa estranhamento tamanha efusão por conta dos 50 anos de Madonna. Ela está no mercado com um novo álbum, novos clipes e uma turnê mundial a iniciar. Considerando sua inquestionável aura mítica na cultura pop, era de se esperar que todos os meios de comunicação cabíveis se saturassem de homenagens. Mas curiosamente, há sempre um ponto em comum nas tais homenagens: a comparação com Michael Jackson, citando este de forma pejorativa, especialmente por estar inativo.

Pergunto: Que grande mérito há em Madonna ter atualmente um disco nas paradas mundiais? Sendo ela uma megastar acompanhada de uma grande estrutura de marketing, patético seria se tal feito não fosse conquistado. Ainda mais se tendo nomes como Justin Timberlake e Timbaland no disco. O sucesso então é uma prova do talento de Madonna (?) ou apenas de seu timing e noção de mercado, em convidar nomes quentes do momento pra garantir sua posição nos charts? O novo álbum de Madonna, como todos seus outros, nada tem de grandioso e inovador. Ao contrário de muitos, não me espanto com a mudança do estilo dance para o R&B/Hip Hop, apesar de tal mudança ser uma óbvia tentativa de conectar-se com o público adolescente americano, não entusiasta da techno-music. Madonna nunca teve uma identidade musical forte e tampouco contribuiu para a música, ao contrário de Michael Jackson, sempre lançando o que quer que estivesse em voga. Prova disso é a qualidade nostálgica de todos seus álbuns, que podem ser tidos como retratos da música pop mainstream do passado, enquanto Off The Wall de Jackson, por exemplo, continua sendo referência aos popstars do momento quase 30 anos depois de seu lançamento.

É curioso também o sucesso de Madonna ser sempre atribuído ao presente, como se a qualidade de seu trabalho ou o interesse no mesmo fosse a motivação-mor do sucesso que ela geralmente obtém. Não é! Madonna, assim como qualquer um que tenha sido fenômeno em algum ponto de sua carreira (e há validade nisso desde Michael Jackson à Xuxa), terá uma enorme probabilidade de obter êxito nos projetos que realiza por ter conquistado um público fiel, em especial se tais projetos forem comercialmente viáveis (como seus hits para adolescentes).

Comercialmente e, mais importante, artisticamente, é interessante observarmos a trajetória de Madonna e compararmos em justiça com a de Michael Jackson, já que tal comparação, absurda até em Plutão, parece ser a favorita dos anti-Jackson.

Quando Madonna começou a estourar, em 1984, Michael Jackson já tinha consolidado Thriller como o álbum mais vendido de todos os tempos. Enquanto Jackson nos brindava com clássicos da música como Billie Jean e apresentava o seu moonwalk, Madonna esganiçava Like a Virgin e rolava pelo chão do Video Music Awards da MTV (premiação esta que só existiu pelas obras pioneiras de Jackson em videoclipe, que popularizaram o formato), demonstrando efusivamente o seu grande talento artístico.

No final dos anos 80, Jackson lançava seu home-video The Legend Continues, que trazia depoimentos de lendas como Elizabeth Taylor, Katharine Hepburn, Gene Kelly e Sophia Loren sobre o talento de Michael Jackson. O coreógrafo de Fred Astaire, que trabalhou com o mesmo desde seus primeiros musicais na RKO, admitiu: "não comparem Michael Jackson com Astaire ou Kelly pois ele é um dançarino com seu próprio mérito e com seu próprio estilo". Pouco antes de morrer, Fred Astaire diria sobre Jackson: "Obrigado Michael! Não queria deixar este mundo sem saber quem meu sucessor seria!" Pouco depois, Madonna estaria nas manchetes por simular sexo no show Blond Ambition e lançaria seu documentário Na Cama Com Madonna, um monumento da egocentria em filme.

Michael Jackson retornaria em 91, com seu vídeo Black Or White exibido simultaneamente em 27 países para uma audiência de 500 milhões de pessoas, recorde absoluto de audiência para um videoclipe. Jackson ainda tornaria Dangerous o álbum mais vendido de 1992, com mais de 16 milhões de cópias no ano e ganharia o prêmio de Lenda Viva no Grammy. Madonna amargaria o fracasso de seu projeto "ambição sexual-revolucionária", consistindo no livro Sex, filme Corpo em Evidência e álbum Erotica. Este rolaria abaixo nos charts com pouco mais de 5 milhões de cópias vendidas, mesmo com uma turnê mundial para apoiá-lo.

Pelo resto dos anos 90, Michael Jackson ainda teria êxito comercial com HIStory e Blood On The Dance Floor, álbum duplo e álbum de remixes mais vendidos de todos os tempos, respectivamente. Nos anos 2000, Michael teria um álbum de inéditas sabotado pela Sony Music, seria ridicularizado pela imprensa e julgado por uma acusação de abuso sexual de um menor. Madonna, como gostam de enfatizar seus seguidores, lançaria vários discos e emplacaria alguns sucessos (nenhum de relevância como os do início de sua carreira, no entanto).

O ponto óbvio, cego aos olhos dos fãs da material girl, é a delimitação clara entre arte e entretenimento. Madonna é, como li um crítico musical dizer certa vez, um ato de cabaré que deu certo. Ela entrou na onda do megamarketing (iniciada com o fenômeno de Thriller) e transformou-se em uma das maiores estrelas do nosso tempo, abusando da publicidade pessoal e flertando com temas polêmicas como religião e sexualidade. Embora seus concertos possam ser bem-trabalhados e até mesmo interessantes como entretenimento, são sofisticados deste modo justamente para compensar a absoluta falta de talento de Madonna como uma autêntica performer e até mesmo como artista, na extrema semântica do termo.

O astucioso jogo de publicidade de Madonna com atitudes esdrúxulas (como beijar Britney Spears, por exemplo), que causam tanta polêmica vazia em nossa sociedade moralista, é o ponto-base do fascínio que sua imagem exerce. Seus fãs tomam tais atitudes como grande exemplo de “coragem” (vale lembrar que, na ocasião do beijo com Britney Spears, no Vídeo Music Awards, seu álbum American Life fracassava nos Estados Unidos) de uma mulher “emancipada”. Madonna, desta forma, se torna mito, e não por conta de algum talento extraordinário que possua.

Michael Jackson e Madonna. A única coisa que ambos têm em comum, além de terem nascido no mesmo ano, é a conquista do status de ícones mundiais durante os anos 80 e as vendagens absurdas de centenas de milhões de discos. Enquanto Michael Jackson pertence à mesma categoria de Astaire, Gene Kelly, Sinatra, fascinando a todos com sua supra-genialidade para o canto e a dança, Madonna é uma mera empresária calculando suas próximas jogadas de marketing para conquistar mais adolescentes ávidos por um ídolo pseudo-revolucionário.

Neste sentido, é de nula importância o fato de Jackson não ter um disco de inéditas em sete anos. O universo artístico foi tão fundamentalmente transformado por seu talento que ele pode dar-se ao luxo de dar o ar da graça de década em década, se for sua vontade. Seu clássico Wanna Be Startin’ Something é a base para um dos maiores hits do ano, Please Don’t Stop The Music da popstar Rihanna. O relançamento de Thriller, com um modesto single remixado lançado para as rádios, estreou como o disco mais vendido no mundo no começo do ano e, segundo estatísticas, alcançará até o final de 2008 as 3 milhões de cópias. Vale citar que Hard Candy, novo disco de Madonna altamente promovido, está perto da mesma marca.

Aplaudemos Madonna, entretanto! Hoje é seu 50º aniversário e, sejamos sinceros, são poucos os que conseguem um feito extraordinário como o seu: convencer todo o mundo, por mais de 20 anos, que é uma artista brilhante, revolucionária e genial ao patamar de Jackson, travestindo com excelência polêmicas baratas em pioneirismo artístico. Por estas e outras, congratulations Queen of Pop!

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Goodbye, Norma Jean...


Há 46 anos, perdíamos a estrela mais cintilante do horizonte cinematográfico. Norma Jean nos deixava para imortalizar Marilyn Monroe. Nas palavras de Elton John, Monroe viveu "como uma vela no vento". Sua vela já se apagou há muito tempo, mas nunca sua lenda.

Deixo-os com um pequeno poema que escrevi há dois anos. Que Deus lhe abençõe, Marilyn!


Para Monroe, de Quem Morre

À tarde, teço memórias para entreter o coração
E sorrir pra não cansar o tempo escasso
Do teu semblante estou a um passo
Da fotografia que inspira mais sincera oração

És tua a dor mais forte e estridente
Que resplandece nos teus olhos de fúlgida centelha
E ergue teu nome no céu até a mais alta estrela
Marilyn, tornaste-te ícone capital do mais berrante vazio
que se sente

E no falso brilhante do louro preto-e-branco já desbotado
Todas as coisas estão cheias de deuses, como a ti
Pois morrer é viver na solução do teu fado

Para sempre estarás encantada, num sonho eterno, sorrindo-te
Na alma dos que ostentam em ardor corações flagelados
Nobilíssima chuva que me faz chorar, seu nome guarda-te
Marilyn Monroe, símbolo eterno daqueles que nada buscam
a não ser serem amados.


quarta-feira, 30 de julho de 2008

Jimmy Dean: O "American Rebel"


"É tão estranho. Os bons morrem jovens. Assim parece ser, quando me lembro de você que acabou indo embora, cedo demais..."
Renato Russo, "Love In The Afternoon"


Conheci James Dean em dezembro de 2002, quando uma homenagem na TV à cabo apresentou seus três únicos filmes. Naquela época, tinha já flertado com as comédias de Marilyn Monroe, e era tudo o que conhecia então da chamada "era de ouro" de Hollywood.

Minha identificação com o ídolo não foi imediata. Foram necessários alguns anos, sim, os cruciais anos do "high school", tão bem representados pela sua on-screen persona, para que Jimmy se tornasse um dos meus ídolos totais. Em certa época, "Juventude Transviada" rodava todas as sextas-feiras à noite no meu videocassete. Era como se, depois de enfrentado todos os fantasmas da semana, encontrasse afinal um amigo. O Jimmy angustiado, barulhento, rebelde. Nem criança, nem adulto.

Nas últimas semanas, mergulhei no universo de Fairmont, Indiana, depois Los Angeles, Nova York - e novamente Los Angeles - durante os anos de 1931-1955, na biografia clássica de Jim, "The Mutant King", escrita por David Dalton.

A impressão é de que nada havia que o menino prodígio não pudesse fazer. Morando em Fairmont com seus tios desde a morte da mãe, o pequeno Jimmy Dean era o maior esportista da escola e, ao mesmo tempo, o maior talento em artes dramáticas. Ambicioso, muda para LA para estudar artes cênicas, mas logo larga o curso e vai tentar a sorte em Nova York. Depois de uma aclamada performance em "The Immoralist" na Broadway, Jimmy conhece aquele que todos os aspirantes a ator de cinema nos anos 50 gostariam de conhecer: Elia Kazan.

Elia Kazan era o cineasta de filmes polêmicos e inovadores que havia levado Marlon Brando ao estrelato mundial com "Uma Rua Chamada Pecado". Jimmy - disputando com o então novato Paul Newman - logo ganha o papel de Cal Trask, na versão cinematográfica para a obra de John Steinbeck, "East Of Eden", intitulado no Brasil como "Vidas Amargas".

Começa aqui a construção do mito-ídolo-ícone James Dean. Ele interpreta o filho problemático que não recebe amor do pai. Amargo, Cal/Jimmy faz negócios para recuperar o dinheiro perdido pelo pai em uma empreitada fracassada, na tentativa de obter seu reconhecimento e afeto. Chegado o aniversário do pai, Cal entrega o dinheiro a ele, e o que se segue é uma das seqüências mais brilhantes da genialidade de Dean como ator. O clímax da obra: o pai, ofendido, recusa-se a aceitar o dinheiro. Jimmy ardorosamente o abraça e sai de casa num misto de grito e choro, tombando com a mesa. Sua performance lhe renderia uma indicação póstuma ao Academy Award.

Entretanto, é em seu próximo filme que James Dean assumirá sua persona mítica, em calças jeans e jaqueta vermelha.

"Juventude Transviada"
, do diretor Nicholas Ray, tornar-se-ia o retrato mais fiel dos adolescentes americanos nos anos 50. A geração do pós-guerra, em incessante revolta contra o mundo, construindo sua própria sociedade alienada, disputando rachas e praticando crimes. Longe dos jovens retratados em filmes familiares dos anos 30, como a série "Andy Hardy".

Jimmy, nesse filme, paradoxalmente interpreta um personagem também chamado James: no filme, ele leva o apelido de 'Jim'. Jim Stark. Jim Stark é um garoto que só se envolve em problemas e ninguém sabe o porquê. Novo na cidade, ele irá freqüentar a Dawson High, onde irá conhecer os seus co-leaders na trama, Judy (Natalie Wood) e Platão (Sal Mineo). Dois personagens estigmatizados, Judy é a garota que se envolve com rapazes da gangue barra-pesada para atrair a atenção de seu pai; Platão aparece na seqüência inicial do filme, na delegacia, por ter atirado em cachorros filhotes, quando descobrimos que sua mãe viajou em seu aniversário e que seu pai, aparentemente, não o vê há anos - e nem demonstra interesse em tal. Platão, ao vislumbrar Jimmy, identifica aquele que talvez possa suprimir sua carência paternal.

Passemos à seqüência do planetário. Talvez subliminarmente, uma passagem de fato interessante acontece quando Jimmy chega ao planetário. Ao entrar em cena, o professor acaba de dizer a seguinte frase: "Por muitos dias antes do fim de nosso planeta, as pessoas olharão o céu à noite e perceberão uma estrela, crescendo em brilho e aproximação". Para um filme repleto de simbologias, esta certamente é bastante curiosa.

Jimmy irá mais tarde participar de um racha, em que seu inimigo acabará morrendo. Decidido a prestar depoimento na polícia, Jimmy confronta seus pais que, apesar de terem lhe educado a sempre "contar a verdade", acham que este não é o momento apropriado para aplicar tal ensinamento. Não é "conveniente". Jimmy, indignado, parte para cima do pai e foge de casa, encontrando Judy no caminho.

Bom, vou poupar o final da história para futuros espectadores desta grande obra de Nicholas Ray. Obra esta que Jimmy nunca viu lançada.

James Dean estava oficialmente morto quatro dias antes da estréia nacional de "Juventude Transviada" nos Estados Unidos, vítima de um acidente de carro.

O fenômeno que se seguiu foi tido por alguns como extraordinário, único e até incompreensível. Jimmy já era astro pelo belíssimo "Vidas Amargas", mas foi em "Juventude Transviada" que ele, em Cinemascope e Warnercolor, tornou-se o mártir multimídia de uma geração inteira.

James Dean tornou-se um fenômeno mundial único. Ele era a voz da juventude, mas estava morto. Para alguns, isto foi intolerável. Na Alemanha, duas garotas cometeram suicídio um ano depois da morte de Jimmy, dizendo que a vida sem ele era "insuportável". Mais de 3.000 pessoas participaram da cerimônia em homenagem ao primeiro ano de sua morte, na cidadezinha de Fairmount. Até hoje, todos os anos em Fairmount é realizado um evento em homenagem ao superastro.

Muito foi debatido na época de sua morte sobre o porquê Jimmy Dean tinha um impacto tão grande entre os jovens, e até mesmo adultos. James Dean foi simplesmente o único ator a retratar com hipersensibilidade todos os conflitos e tormentos que se operam na tortuosa fase da adolescência. Ele disse na tela tudo o que os adolescentes queriam dizer a seus pais, e não conseguiam. Com tamanha identificação emocional, tornou-se instantaneamente um ícone na moda. Mais tarde, teria extrema importância no movimento do rock-n-roll, donde surgiriam os novos ídolos da juventude. Com a morte de James Dean, o cinema, que já enfrentava problemas com seus astros e estrelas envelhecendo, teria nele seu último grande astro do "star system".

Sua imagem já rodou os quatro cantos do mundo e é tão conhecida quanto a de Mickey Mouse, mas a mensagem de Jimmy é seu verdadeiro legado. A legitimidade desta é atestada quando outras gerações - como a do escritor que vos fala - se identificam e são tocadas por ela.

Jimmy Dean, em seu rosto de menino perdido, tocou a minha vida e fez - faz - parte da minha história. E de muitos outros ainda fará, por quantos anos-luz seu inesquecível "You're tearing me apart!" fazer esboçarmos um sorriso de "é isso mesmo, Jimmy, sabemos como você se sente!"

sábado, 28 de julho de 2007

O "glorious feeling" de Gene Kelly


Uma querida amiga minha pediu-me para discorrer sobre esta obra-prima, e como não sou de negar pedidos (ainda mais para esta querida amiga em especial), cá estou! Talvez os vibrantes pingos de chuva de Kelly ajudem a afastar a um tanto sobrecarregada aura deste blog. Ora, eu não sou de todo raiva, afinal! Há quem, pasmem, considera-me até divertido!

Em todo caso, o motivo desta postagem é a obra máxima de um dos maiores dançarinos que Hollywood já filmou: Gene Kelly e o glorioso "Cantando Na Chuva".

E sim, permita-me confessar que se trata do meu filme favorito de todos os tempos, o que, no entanto, não me impede de uma análise objetiva do mesmo – em verdade, a grandeza de "Cantando na Chuva" transcende a fronteira entre o subjetivo e o objetivo. A paixão que ele causa não é meramente pessoal, mas advém também do reconhecimento da potencialidade do Homem quando este almeja a perfeição.

O ano de 1952 marcou o nascimento do maior musical da história do cinema mundial - estrelado e co-dirigido por Gene Kelly. Aliás, esqueçam estórias de one-hit wonders - ou óbvias injustiças do que se rotula one-hit wonder.

Gene Kelly felizmente não teve de arcar com o estigma de um Michael Jackson: começar sua carreira tornado-se um Deus com um sucesso comercial que nem ele nem outro ser humano qualquer poderia superar sendo, portanto, rotulado até o fim de seus dias como um essencial fracasso (no box office e na arte).

Quando o astro rodou "Cantando na Chuva", já somava dez anos de carreira e quarenta de idade. Já havia dançado nas telas com Judy Garland, Lucille Ball, Rita Hayworth, Frank Sinatra e até mesmo com Jerry (sim, o rato da dupla com o gato Tom!). Uma indicação ao Oscar de Melhor Ator aconteceu em 1946, pelo agora clássico "Marujos do Amor". Gene Kelly já era, portanto, um artista consagrado.

Mas foi quando este gênio da dança decidiu tomar o comando do set que superou eternamente seu arquiinimigo das telas, Fred Astaire, vingando na cultura popular como ícone insuperável do musical.

Sim, depois de assistir "Cantando na Chuva" você concordará com Kelly, quando este disse que se Fred Astaire era o Cary Grant da dança, ele era o Marlon Brando.

A começar pela trama, Gene Kelly já surpreende. A estória de dois superastros do cinema americano da era muda que têm de se adaptar ao cinema falado - a nova sensação - ou acabarem no esquecimento. É notório que os musicais, em sua maioria, não apresentavam uma estória ambiciosa.

Eram geralmente um palco de exposição para os astros da dança aliados a roteiros medíocres. Gene Kelly experimentou esta lógica no começo da carreira com "Du Barry Era Um Pedaço", por exemplo, assim como Astaire em vários de seus filmes.

Kelly, transpondo a antiga idéia de musical, cria não só o maior de toda a história, mas é capaz de uni-lo a uma das mais deliciosas comédias já colocadas em filme. Jean Hagen, em performance indicada ao Oscar, interpreta o par romântico do personagem de Gene nas telas do cinema mudo.

Incapaz de cantar ou simplesmente falar com graça correspondente à beleza de seu rosto que encanta o público, acaba sendo dublada pela personagem de Debbie Reynolds, mocinha do filme, apaixonada pelo personagem de Gene.

Quem já assistiu ao filme certamente percebeu aqui uma de suas grandes ironias. Debbie Reynolds, uma jovem de 19 anos na época, não canta nas seqüências de "You Are My Lucky Star" e "Would You" (esta, curiosamente, era uma das canções em que sua personagem dublava a voz da personagem de Hagen). A voz é da cantora Betty Noyes.

Outra curiosidade ainda na cena de "Would You", onde Debbie Reynolds está em um estúdio para dublar a voz de Jean Hagen. A tela do estúdio exibe a cena da canção com uma fala da personagem de Jean antes. Na lógica do filme, temos então Debbie Reynolds dublando Jean Hagen, que não fala nem canta por si na produção com som de seu próximo filme com Don, personagem de Kelly. No entanto, na filmagem real do filme (e aqui me refiro à "Cantando na Chuva"), Jean Hagen, que tinha uma voz versátil, dubla a si mesma. Então, na verdade, Debbie Reynolds finge que dubla Jean Hagen que, na verdade, dubla a si mesmo! Filme rico até nessas questões!

Além de Reynolds e Hagen, o filme traz mais um incrível talento. Donald O' Connor, que interpreta Cosmo, melhor amigo de Don, e nos brinda com uma das maiores performances do filme: "Make 'Em Laugh". Impossível descrever a graça deste palhaço-dançarino: só assistindo a este inesquecível momento do cinema para saber! Certamente valeu à pena a internação de uma semana após as filmagens, sofrendo de exaustão!

E certamente também valeu à pena o perfeccionismo ditatorial de Kelly - sim, ambos O' Connor e Debbie Reynolds comentaram mais tarde que não se deram bem com Gene no set. Reynolds declarou até que dar à luz e sobreviver às filmagens deste filme foram as coisas mais difíceis que já passou na vida. A química dos três na tela é, no entanto, estratosférica, em momentos como o número de "Good Morning".

Gene Kelly, astro máximo do musical com seu glorioso guarda-chuva preto, performa a faixa-título do longa e emociona com um show de talento que o elevaria ao nível icônico que só alguns Deuses do cinema atingem.

Aparentemente, ele possuía consciência de que, realizando este filme, estaria para sempre imortalizado. Não apenas pela grandeza dele em si, mas pelas inúmeras referências ao seu passado cinematográfico. A melodia de "Make 'Em Laugh" é a mesma de "Be A Clown", canção final de "O Pirata" (1948), em que contracenou com Judy Garland. A roupa de mosqueteiro usada para o início das gravações do filme de Lina & Don foi tirada diretamente da versão de Gene de "Os Três Mosqueteiros" (1948). O extenso número "Broadway Melody", então, traz uma série de flashbacks de "Casa, Comida e Carinho" (1950), "Words And Music" (1948), "Um Americano em Paris" (1951), entre vários outros.

É a celebração de Gene Kelly e a superação de Gene Kelly que, unidas, só poderiam resultar em sua obra-prima.

Após "Cantando na Chuva", o dançarino não protagonizou nenhum outro grande filme, ou que mereça ser comentado. Como diretor, esteve à frente de "Alô, Dolly!", sucesso com a diva Barbra Streisand vencedor de 3 Oscar.

"Cantando na Chuva", ironicamente, foi ignorado pela Academia. Recebeu 2 indicações, para Melhor Atriz Coadjuvante (Jean Hagen) e Melhor Trilha-Sonora. Gene, no entanto, recebeu no ano anterior um prêmio especial "em apreciação à sua versatilidade como ator, cantor, diretor e dançarino, e especificamente por suas brilhantes conquistas na arte da coreografia em filme."

Pois é, se tudo isto era verdade em 1951, certamente não haveria prêmios para agraciar a supra-genialidade deste Gene Kelly de 1952. Só mesmo com sua tão merecida imortalidade. Que os Céus o abençõem! Deve estar saltando entre nuvens a cantarolar "Gotta Dance!"