sábado, 4 de outubro de 2008

Perda de Memória Recente

Acredito que devo um atrasado - porém merecido - agradecimento ao canal de TV à cabo Sony, por impedir que prosseguisse como pessoa estúpida e pedante ao exibir o documentário "Living With Michael Jackson", há 5 anos atrás. Lembro-me perfeitamente que estava na casa de uma tia e, antes de viajar, forcei-me a não esquecer de tal especial que, segundo os sites de fofoca em geral, era simplesmente "bombástico". Simbolicamente, esta era a casa da mesma tia cuja filha havia me apresentado ao astro quase dez anos antes.

Michael Jackson foi um dos meus maiores ídolos de infância. Era apaixonado por suas músicas, seus vídeos visionários, sua imagem mágica e misteriosa e seu carisma estelar. E era isto. Tinha uma profunda admiração pelo seu talento extraordinário, mas nada sabia de sua pessoa. Ademais, minha pré-adolescência coincidiu com uma era em que Jackson passou a ser tomado como um personagem-piada do inconsciente popular e eu, em meu doentio hedonismo, achava graça de sua difamação pública. Talvez tenha sido uma rara retomada de humildade que, em minha imbecilidade juvenil, me impeliu a assistir ao documentário sem intenções maliciosas.

Se no espírito humano possa ocorrer o que os religiosos definem como "conversão", eu experienciei a mudança de minha vida ao término daquele documentário. Quando Michael Jackson disse ao "jornalista" Martin Bashir as seguintes palavras "Na sua mente, você nunca esteve onde eu estive", tive a certeza de ter conhecido, em 90 minutos, um homem de uma humanidade que não acreditava que pudesse existir. De uma humanidade que, talvez, eu já tivesse desistido de acreditar. Fui dormir entorpecido, em meio a sonhos com aquele Michael da minha infância, fugindo dos fotógrafos em "Moonwalker" no SBT, com sua cool roupa preta de Bad, mesclado à estátua da liberdade de Black Or White em ruas escuras Beat Itanas e, latejante, aquele Michael recém-descoberto, o Michael With a Child's Heart, o Michael que, daquele momento em diante, tornou-se inevitalmente meu herói.

Poucos meses seriam até que o pesadelo maior de Michael e de seus fãs tivesse início. Jackson foi preso, acusado de abuso sexual de um menor de 13 anos, para o deleite da imprensa mundial. Minha dor pessoal por Michael pôde ser compartilhada em outra experiência transformadora de minha vida - a convivência com os fãs ou, como prefiro, os supporters de Michael Jackson, aquelas pessoas que partilhavam dos mesmos valores que ele e que amavam a pessoa de Michael por personificar tais valores. Árduos tempos aqueles, de indignação, revolta, nervosismo, sofrimento e, em especial para mim, de amadurecimento. Foi Michael minha identificação maior nos definidores anos da adolescência. Tenho plena consciência de que devo minha formação como pessoa à integridade e força sobre-humanas de Michael Jackson, pois foi ele quem estampou na minha TV, todos os dias daquele julgamento, ao chegar à Corte fazendo um "V" de vitória, que tudo o que eu havia aprendido com ele não eram apenas palavras bonitas. Não era um juvenil e ingênuo idealismo ou fanatismo, como muitos gostavam de julgar à época. Era de verdade!

Passada a absolvição, Michael tem mantido um low profile nos últimos três anos, fora dos holofotes, a não ser em eventuais premiações (MTV Japan, WMA) e alguns mais recentes ensaios para revistas. Nada mais do que merecido, e qualquer ser que se auto-declare minimamente fã de Michael Jackson desejaria a ele, depois do inferno pessoal que viveu, nada menos do que a felicidade, esteja ela onde ele encontrar. Só que seria mais conveniente se ele encontrasse tal felicidade voltando a fazer álbuns e turnês milionárias, não?

Acontece que, depois de três anos de uma experiência transformadora para mim, me pergunto onde diabos foram parar os verdadeiros supporters de Michael Jackson. Teriam todos eles ido cuidar de suas vidas, como fez Ms. Tenda? Só deste modo poderia ser explicado o desfile de cretinices que tenho lido, cada vez mais, de auto-declarados fãs de Jackson.

Comecemos: Michael Jackson está obviamente interessado em retomar sua carreira musical, o que deveria ser motivo de empolgação aos tais fãs, já que, sofrendo o que sofreu, demonstra ainda uma surpreendente força de vontade para voltar a interagir com o público (coloque-se no lugar dele e imagine se você teria tal força). Vale lembrar que ele já ressaltou, em entrevista à Oprah, que nos exaltados tempos de Thriller não era feliz. Em todo caso, isso pouco importa a estes tais fãs. Mais do que demonstrado interesse, Jackson está gravando já há certo tempo e, de mês em mês, pipocam declarações de seus colaboradores. Neste caso, a controvérsia (leia-se santa falta do que fazer) entre os “alleged fans” é de que Michael escolheu os colaboradores errados (tolinho ele!) e por isto, conclusivamente, o disco não será bom. Percebe-se claramente que os tais fãs tiveram acesso exclusivo às novas gravações para um julgamento tão apurado ou então, sabe-se lá, desenvolveram algum inovador sistema de musicopatia onde eles recebem, em suas maravilhosas cabecinhas, todas as novas idéias musicais de Mr. Jackson para o álbum! Santa mediocridade acefálica!

Talvez um dos comentários mais patéticos que tive o desprazer de ler é de que Michael Jackson é um prostituto pelo re-lançamento de Thriller deste ano. Curioso, cobram novo álbum e cobram com qualidade, mas não podem esperar o criador completar a criação (fosse para lançar o que desse na telha, já tinha saído... ou alguém acha que Mr. Jackson está a brincar de fazer música no que é provavelmente o álbum mais esperado de sua carreira?)! Enquanto isso, Thriller 25 foi simplesmente a melhor investida na imagem de Michael em anos. O resultado, todos sabemos. 25 anos depois, é um dos dez discos mais vendidos de 2008 com quase 3 milhões de cópias. Foi um excelente projeto de re-introdução de Michael Jackson no mercado fonográfico, embora não tenha agradado boa parte dos senhores de engenho/fãs de Michael, seja por não ter sido o "novo álbum" ou por, em sua demência abismadora, acreditarem que seu lançamento atrasou o disco novo (?) (Traga-me ó Ceus o disco novo de Jackson para minha ínfima existência! Sem ele não vivo, não respiro, só sei falar mal de Invincible...); ou ainda por Michael ter usado remixes de algumas faixas de Thriller como material extra para o disco, cometendo o sacrilégio maior: blasfemar a santa hóstia! Ó Michael, por quê nos tortura dessa forma? A fazer o que bem queres, da forma que bem entendes, na obra que tu mesmo criastes...

Do modo que as lamentações fóbicas foram feitas para Thriller 25, se repetem para a nova coletânea King Of Pop, coleção esta que tem apenas um singelo apoio da Som Livre com direito a comerciais na Rede Globo. É evidente: fãs de Michael Jackson não querem ver seu ídolo vendendo discos!

O que me surpreende mais, muito além da trivialidade dos desocupados que se põem a malhar os lançamentos, é a desumanidade daqueles que acreditam piamente que Michael lhes deve alguma coisa, e por não lançar tal disco novo, põem-se a fazer beicinho e chamá-lo de vagabundo. Não acrescentam nada à comunidade e acreditam ter direito à tal "opinião". Certamente esse pessoal não trabalhou metade do que eu e muitos outros trabalharam no passado para trazer material de qualidade aos fãs, nem sofreram o que nós sofremos com o julgamento... no entanto, são eles os primeiros a exigirem que Jackson seja um subordinado às suas vontades, como se a condição de garantisse o direito de decisão no que ídolo deve ou não fazer e ainda como fazer (Michael Jackson Fast Food, aguardamos o seu pedido!). Esquecem facilmente que, há três anos atrás, Michael poderia simplesmente ter perdido sua vida e liberdade, liberdade esta que ele usa hoje para gravar as músicas que em breve serão escutadas e apreciadas pelos mentecaptos que já as condenam! Afinal, somente desalmados poderiam classificar Michael Jackson, escravizado pelo sucesso desde a infância, de vagabundo.

O que esses seres doentios, parasitas do sucesso de Michael Jackson, acreditam que ele ainda tem a provar com tal disco novo (para satisfazer suas "vidas" pífias, é claro) está além da minha imaginação. Como mito, seu posto já está assegurado há 25 anos. Como performer, recebeu de Astaire as seguintes palavras: "é o dançarino do século!". Como músico, criou algumas das maiores canções pop da história. Como pessoa... só os supporters poderiam entender quando digo que nem a sacrossanta Billie Jean chega aos pés do homem que, humilhado por ousar viver diferente, disse a Corey Feldman: Ninguém nunca vai me impedir de ser quem eu sou. É lamentável que, passado três anos, os fãs que dizem o amar tenham esquecido, ou sequer aprendido, o que aquilo verdadeiramente significava...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Se Existiam Deuses... Eram Eles Astronautas?


"Há muitas moradas na casa de meu Pai; se assim não fosse, já eu vo-lo teria dito, pois me vou para vos preparar o lugar. Depois que me tenha ido e que vos houver preparado o lugar, voltarei e vos retirarei para mim, a fim de que onde eu estiver, também vós aí estejais." ~ São João, Cap. XIV, vv. 1 a 3.

Há pouco tempo terminei a leitura de "Eram os Deuses Astronautas?" de Erich von Däniken. Lançado em 1968, tornou-se um dos grandes best-sellers com mais de 40 milhões de cópias em todo o mundo. E embora eu sempre torça o nariz para os best-sellers, tanto ouvi falar de Däniken - de gente que diz que o livro mudou suas vidas, a quem afirma que Erich não passa de um picareta - que tinha de lê-lo.

Apesar dos mistérios abordados me fascinarem, a leitura não me impressionou. De fato, não o considerei sensacionalista, o que poderia explicar as vendas espetaculares - esperava algo que beirasse ao religioso, como a ufologia mística -, mas talvez suas afirmações, não tão polêmicas 40 anos depois, fossem extraordinárias para 1968, era pré-internet sem informações expostas ao grande público e de fácil acesso, além do início da onda ufológica no mundo.

Erich von Däniken elabora uma, verdadeira ou não, interessante teoria sobre o misterioso passado humano na Terra. Segundo ele, possivelmente, seres extraterrestres estiveram em contato com civilizações como a egípcia e a maia. Sua argumentação se sustenta em fatos peculiares e ainda assombrosos, como o posicionamento das três pirâmides de Gizé no Egito, que é proporcional às estrelas da constelação de Órion - estrelas conhecidas no Brasil como "As Três Marias". A circunferência da pirâmide de Quéops que, dividida pelo dobro de sua altura, tem como resultado o célebre número de Ludof, Pi = 3,14159. Um meridiano que passe pelo seu centro divide continentes e oceanos em duas metades exatamente iguais. Aliás, a própria construção das pirâmides em si é extraordinária. Ainda hoje, não se sabe como foram construídas nem o método usado. Como teriam os egípcios realizado construções de tal porte e com tamanha precisão astronômica?

Os maias também construíram pirâmides e tinham alguns conhecimentos fantásticos. Sabiam que a Terra demora 365 dias para girar em torno do sol. Seu lendário calendário data, com perfeita exatidão, todos os eclipses e eventos solares até o ano de 2012! Outro mistério citado é o dos mapas do pirata Piri Reis, integrantes de sua obra Bahyre, publicada no século XVI. Segundo ele, os mapas foram realizados a partir do estudo de todas as cartas existentes de que tinha conhecimento, algumas "muito antigas e secretas". Foram redescobertos nos anos 20, mas o caso só veio à tona nos anos 50. O mapa apresenta, com exatidão, a Cordilheira dos Andes e até o Rio Amazonas, áreas até então inexploradas! Contém também a Antártida, suposto continente perdido e um dos maiores mistérios da humanidade. Como poderiam tais mapas serem realizados sem o auxílio de um veículo aeromotor?

Picareta ou não, Däniken intriga e, ao seu favor, admite apresentar apenas uma teoria não-comprovada. De fato, assim como extraterrestres podem ter auxiliado no desenvolvimento de tecnologias humanas, um inteligente coelho gigante vindo de uma suposta civilização intra-terrena de Vênus poderia também fazê-lo, não é mesmo? Em realidade, talvez a comoção maior de Astronautas seja causada pelo completo ou parcial desconhecimento das pessoas sobre os próprios mistérios assim como sobre as civilizações antigas (e aqui este autor se inclui). É muito mais fácil manipular teorias sobre um assunto o qual a humanidade não têm conhecimento completo (a civilização mesopotâmica, por exemplo), ainda mais quando o pouco conhecimento que se tem não é exatamente um lugar-comum na cabeça do público em geral, sendo fácil deste modo exercer um fascínio sobre algo que já é misterioso. Dan Brown é o maior expoente disto em nossos tempos.

Agradável, no entanto, foi meu contato com este fenômeno da cultura pop. Que venha agora Caio Fernando Abreu!

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Êxtase Brandoniano

É notória a minha insatisfação com a cidade de Santos. Culturalmente, pouco (se quase nada) me atrai. Invejo São Paulo com suas salas de cinema alternativas que exibem Wilder, Bergman, Fellini e estrelas como Monroe, Garbo e Davis como algo rotineiro. Com este sentimento iniciei a segunda-feira do dia 15. E com uma pitada de raiva também.

Navegando pela Folha Online descobri, em destaque, que filmes raros do grande Ingmar Bergman serão exibidos na Mostra de Cinema de São Paulo deste ano. Como tudo que é bom nunca chega a esta província-wannabe-metrópole, claro que não me espantou. De fato, seria um feito extraordinário se um evento deste porte sequer chegasse perto de Santos (embora que, Deus saiba lá por que, Dionne Warwick, que já pisou nos palcos do Madison Square Garden, esteve duas vezes a fazer shows há poucas ruas de minha casa no último ano).

A indignação porque não terei a experiência única de assistir Bergman no cinema transformou-se em curiosidade. Será que Santos nada tem de interessante a Vilângelo ou Vilângelo que, por não ter interesse em Santos, não sabe se há algo interessante de fato? E em tal questão hamletesca, dirigi-me destemidamente ao Google em busca de desbravar os supostos recantos da boa cultura na minha tão lamentavelmente tediosa cidade. Eis que fiz um excelente, se não quase surreal achado: o Museu de Imagem e Som de Santos.

O MISS está localizado no Teatro Municipal da cidade e, quem conhece o local, certamente compreenderá do que falo (sim, toda vez que tal Teatro vem a minha cabeça só consigo pensar em como o local é feio e mal-cuidado). O MISS não é nenhuma evolução neste sentido. Pouco pude ver do museu em si, que abriga milhares de LPs (entre eles, o primeiro álbum de Elvis Presley e um dos primeiros de Little Richard). Há uma mensagem no site dizendo aos visitantes que é permitido gravar os LPs em fitas K7 para se levar pra casa (pergunto-me se há ironia nisso mas, ao descobrir que a grande maioria dos filmes exibidos no auditório deles é em VHS, reservo-me ao direito de ficar calado).

Mas eis que pulo o momento maior da extraordinária descoberta do MISS. O descobri ao saber que Sindicato de Ladrões, uma das obras máximas do genial Elia Kazan, com uma performance definitiva e histórica de Marlon Brando, seria o filme exibido na "Sessão Retrô" do auditório deles, que acontece todas as segundas-feiras há anos! Sim, mais tarde, ao pesquisar, descobri que, por anos, perdi exibições de Gene Kelly, Cary Grant, Bette Davis, Laurence Olivier, Fred Astaire, Marlene Dietrich, Ingmar Bergman, Federico Fellini e tantos outros... e ainda por cima de graça!

Havia já estabelecido certa programação para o dia, mas quem se importa com o que quer que há de ser feito quando se pode assistir Marlon Brando na silver screen? Bastou-me persuadir alguns amigos, e já estava a caminho de tal glorioso momento!

Como comentei sobre a precariedade das instalações do Teatro Municipal, aqui falo sobre o auditório do MISS: as cadeiras, embora estofadas, não eram de fato confortáveis, o aroma da sala não era dos melhores e, sendo sessão grátis, considerável parte do público era constituída pelos mendigos dos arredores que, obviamente, em nada ajudaram na melhoria do odor da sala. A minha cópia do filme em VHS (gravada da TV) era também infinitamente superior à exibida, que deve ter sido algum relançamento oitentista de clássicos em vídeo que, Deus lá sabe como, não embolorou. Mas não reclamemos da boa cultura dada de graça!

Até porque nenhum empecilho merece menção quando surge ele, imenso na tela, um Deus mítico do cinema... Marlon Brando! Como envolto num sonho louco, desses de extrema felicidade e realização aos quais, ao acordarmos, cinzentamente constatamos que apenas no mundo dos sonhos poderia ter acontecido. Mas eu vi ele! Eu vi o Marlon Brando no cinema, como já havia visto várias vezes no meu televisor, como milhares de pessoas viram em sua estréia original, em 1954! E em um dos maiores filmes de Elia Kazan, mestre da direção em clássicos como Vidas Amargas com Jimmy Dean e Uma Rua Chamada Pecado, com Vivien Leigh e o próprio Brando!

Sindicato de Ladrões
, filme do ano no Oscar de 1955, começa com a morte "encomendada" de um grevista, de certa forma ajudada por Terry Malloy, personagem vivido por Brando. Terry, que costumava ser lutador de boxe, trabalha agora no porto para Johnny Friendly, o chefão corrupto do sindicato. Em realidade, Terry não trabalha, ganha grana fácil e executa os trabalhos mais simples... em resumo, é um "vagabundo" (e aqui temos uma das frases mais memoráveis do trabalho de Brando no cinema. Em uma cena com seu irmão, Terry diz: "Você não entende! Eu poderia ter sido um lutador! Eu poderia ter sido alguém! Ao invés de um vagabundo, que é o que sou!"... e o filme atinge seu ápice com a morte do irmão de Terry). A irmã do grevista morto, interpretada por Eva Marie Saint, recusa-se a retornar a escola enquanto não descobrir quem matou seu irmão. Um padre (interpretado por Karl Malden), a ajudará em realizar tal descoberta. Terry Malloy e Edie (Eva Marie Saint) se apaixonam e... será que Terry vai revelar o que sabe? Quando seu irmão é morto, ele decide-se a acabar com o império de Friendly. Não revelarei o final para futuros apreciadores da obra de Kazan, mas não devemos ignorar e ao menos mencionar a beleza simbólica da cena final!

Brando brilha na performance de uma vida (provavelmente a maior performance de Brando, seguida por Uma Rua Chamada Pecado... sim, nunca fui entusiasta de O Poderoso Chefão!), onde cada movimento e cada palavra sua na tela são manifestações estásicas de um talento raro e extraordinário que, em sua legitimidade, contagia-nos também com seu êxtase de expressar!

Ao final da película, meus olhos ainda custavam a digerir a grandeza do momento que haviam presenciado! E eu retornei ao meu mundo caseiro como quem é agraciado com um milagre... "Eu vi Marlon Brando! Eu vi Marlon Brando! Eu vi Marlon Bando!" Ao anoitecer, esvaziei a minha mochila e percebi que haviam levado minha carteira, com todos meus documentos, cartão do banco e dinheiro retirado e vislumbrado por tão pouco tempo, certamente no ônibus lotado a caminho do paraíso Brandoniano. Mas tudo bem. Por ele eu faria tudo isto novamente!

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O Octênio da Repetição

"Vou seguindo pela vida
Me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte
Tenho muito que viver

Vou querer amar de novo

E se não der não vou sofrer

Já não sonho

Hoje faço com meu braço o meu viver..."


Milton Nascimento, "Travessia".


O Octênio da Repetição
Bruno Vilângelo

À vedada tez:
Por tanto tenho o rubro do olhar
Minha chapliniana máscara de pantomima cansada
Desatinada
De longínquia estar a ventura
Que os sentidos já há tanto anseiam

A ostentar na languidez dos passos
Desonra inconfessável
Que cesso em escutá-los e existí-los: não os quero mais
Destemidez sou agora
Em sinuosas lembranças de outrora

E quando nos passos mudos e prostrados
Confronto a crueza nua destes degraus
Não mais quero que vejam minha'lma
Em lancinante putrefação

A mim e à minha fortaleza perdida
Estou certo ao subir nestes passos prosaicos
Que, por tanto tempo
Crescer de nada adiantou
Meu imutável intrínseco de sofrer...
Nada mudou.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

E Então Começava 1983...

"Michael Jackson, por que custou tanto a aparecer Michael Jackson? Os deuses desapareceram há milênios, o grande Pã morreu ninguém se lembra mais quando. As religiões, sentindo-se solitárias, abraçaram-se ecumenicamente, pórem nenhuma apresentou um fato novo, de importância cósmica. Foi preciso que um útero... Não. Michael Jackson, o divino, nasceu da barriga de um meteoro ou da pura luz ou das entranhas do Fatum. Tinha que nascer diferente, para crescer diferente e seduzir diferente a humanidade. O disco de MJ substitui plenamente as Epístolas de São Pedro, São Paulo e São Tiago, e até a novela das 8. Colossenses, Tessalonicenses, Coríntios (e corintianos também), detende-vos e escutai a Voz que vem de Michael. A voz e os gestos. Escutai os gestos, as lantejoulas pretas, a cabeleira incendiada no comercial de tevê, escutai o lobisomem em que ele se transformou."
Carlos Drummond de Andrade, Jornal do Brasil, 19/07/1984.

Alguns momentos glorificam as carreiras de todo grande talento. O gol impossível, a atuação impecável. Michael Jackson já tinha tudo isso e muito mais em 1982. Ele já era, em realidade, um superstar internacional. Contava já com seus trunfos da infância - a icônica imagem que temos na cabeça dele, menininho, com seu grande afro e seus quatro irmãos, entretendo multidões com seus ABC, I Want You Back, I'll Be There e tantos outros sucessos - e com a recente consagração do álbum Off The Wall, disco este que no início dos anos 80 já liderava como o mais vendido por um negro em toda a história da indústria fonográfica. Jackson, no entanto, não ficou satisfeito. A tal premiação Grammy indicou Wall para apenas duas categorias, o que o deixou extremamente desapontado. Sua resposta mental para tal esnobismo da premiação, como registrada no livro Moonwalk, seria a profecia mais acertada da história da indústria fonográfica: "O próximo eles não vão poder ignorar".

Quando Michael Jackson retornou com um novo LP nas lojas em 1º de dezembro de 1982, recebeu críticas favoráveis. Esperava-se que o disco vendesse consideravelmente bem, embora muitos executivos duvidassem de um sucesso à lá Off The Wall, que já era recorde. A estratégia de lançar o compacto de The Girl Is Mine antecipadamente surtiu efeito: nos Estados Unidos, o dueto com Paul McCartney chegou ao no. 2 entre as 100 mais tocadas, recebendo disco de platina por 1 milhão de cópias vendidas. Com isto, Thriller já catapultou imediatamente para a 11ª posição dos 200 discos mais vendidos em solo norte-americano, segundo a Billboard.

E então começava o ano de 1983. Depois dele, nada mais seria o mesmo no mundo do entretenimento, na indústria fonográfica, na recém-criada MTV, nos noticiários, nas revistas de fofoca, nas conversas de salão, no recreio da escola... pois ele, na verdade, agora era Ele. Michael Jackson tomou o ano de 1983 para si e sua grandeza, e nele deixou de ser apenas um superstar: ele era agora o superlativo Deus-mítico da cultura pop.

O Big Ben começou em janeiro de 83: era lançada nas rádios o segundo single do novo disco de Jackson, Billie Jean. Com uma extraordinária batida, a letra revelava um Michael suplicante em explicar que Jean não era sua amante e que seu bebê não era seu filho, um manifesto musical que invadiu as pistas de dança e se consagrou como o maior sucesso de sua carreira: foram 7 semanas em primeiro lugar na terra do Tio Sam e 6 meses entre as 100 mais tocadas, rendendo a ele mais um disco de platina pelo single. Grande parte do seu sucesso pode ser atribuído a outro fator da conquista-Jackson de 1983.

A MTV era um canal com pouco mais de 2 anos de idade quando Michael emplacava os hits de Thriller. Especializada em exibir videoclipes, apresentavam também uma restrição: não exibiam videoclipes de artistas negros. Eles seriam obrigados a quebrar sua política racista em pouco tempo. Michael Jackson, encantado com o formato do videoclipe, levou-o a outro patamar. Billie Jean foi provavelmente o primeiro clipe roteirizado da história, e suas cenas marcantes - o chão que acendia com a magia da dança de Jackson - atreladas ao grande hit do momento marcaram com grandeza o início da Michael-mania em todo o mundo.

O próximo compacto, Beat It, não tardou a ser lançado. Chegou às lojas em fevereiro e escalou lentamente até chegar ao top 10 da Billboard (onde permaneceu por 10 semanas) e ao topo do chart por 3 semanas consecutivas. Michael Jackson agora igualava o sucesso de Thriller ao de Off The Wall: ambos emplacaram dois singles em #1 na parada americana.

Sua escalada ao posto de Deus do Pop teve outro ponto crucial em Beat It: seu segundo videoclipe. Nele, Michael esbanja energia ao impedir o confronto de duas gangues rivais e promover uma grande dança coletiva. Com Billie Jean e Beat It, Michael Jackson popularizou mundialmente o formato do videoclipe que seria agora um fator indispensável na campanha promocional de todo artista pop/rock. Conseqüentemente, a conquista da MTV como canal se deveu justamente ao pioneirismo artístico de Jackson.

Em 16 de maio de 1983, Michael Jackson dava seu penúltimo passo em direção ao mito de si mesmo: foi a noite em que milhões de americanos acompanharam uma das maiores performances da história da dança. O evento foi o Motown 25, show que comemoraria os 25 anos da gravadora Motown com apresentações de vários artistas, incluindo de Michael Jackson como membro do The Jacksons. Ao término da performance com os irmãos, Michael exorciza o seu passado - "Estes foram os dias antigos. Eu realmente amo essas canções..." - e dá o passo em direção à sua glória de mito-mor da história do entretenimento - "Mas o que eu gosto mesmo são as músicas novas" -; começavam as batidas de Billie Jean e Michael, movendo-se ferozmente, incultaria no inconsciente popular sua imagem mágica, misteriosa e fascinante, com um popismo comparado apenas ao de Carlitos: sua luva brilhante, meias reluzentes, sapatos mocassim, o chapéu preto... todos componentes da força sobrenatural que, naquela noite, aterrorizou 50 milhões de lares com sua inexplicável genialidade. No meio da apresentação, como se flutuasse pelo ar, Michael oficiamente se transforma em mito ao realizar seu "moonwalk". No dia seguinte, o mito recém-nascido é reconhecido pelos mitos a quem admirava: Fred Astaire liga para Michael Jackson e diz que gravou sua apresentação e assistiu-a duas vezes pela manhã. "Você é uma dançarino infernal, Michael!", disse um dos maiores expoentes dos filmes musicais. Mais tarde, ele e Gene Kelly dariam uma "passada" na casa de Michael para "baterem um papo".

Michael Jackson era agora maior do que a vida. Assim como Thriller. Neste momento, o álbum firmou-se em no. 1 entre os 200 mais vendidos nos Estados Unidos, onde permaneceu por 17 semanas consecutivas. Depois, oscilaria entre a segunda e terceira colocação, retornando novamente ao topo, onde permaneceria por mais 20 semanas, totalizando 37 semanas - 9 meses e 1 semana! - como o disco mais vendido no mercado mais importante da indústria fonográfica! A ânsia por Michael Jackson, que vendia 1 milhão de "Thriller"s por semana só em seu país, fez com que até Off The Wall, disco de 79, retornasse timidamente aos 200 mais vendidos, até conquistar uma respeitável posição #44, adicionando 49 semanas ao seu chart-run americano.

E o enluvado bombardeava as rádios, criando hits Top 10 instantâneos: Wanna Be Startin' Something (a base para o hit-mor de 2008, Please Don't Stop The Music), Human Nature e P.Y.T. (Pretty Young Thing).

Ao término do ano, Jackson conquistaria mais um hit no. 1 com o lançamento de seu dueto com Paul McCartney para o álbum deste: Say, Say, Say. A faixa ganharia ainda um videoclipe com ambos, mas nada perto do que estaria por vir.

A CBS, gravadora de Jackson, satisfeita com os lucros astronômicos e imprevisíveis gerados pela adoração em massa à Thriller, recusou-se a financiar o próximo - e último - videoclipe do projeto. Michael Jackson então desembolsou 500.000 dólares e contratou John Landis, o diretor de Um Lobisomem Americano em Londres.

Em 2 de dezembro de 1983, a MTV - que, desta vez, pagou pela exibição - exibia Thriller, o curta-metragem de 13 minutos pelo qual Michael Jackson estaria sempre associado, sua última empreitada mítica do ano de 83. Um tributo aos filmes de horror, Jackson nos brinda com um dos momentos mais inesquecíveis já colocados em filme: sua namorada, procurando uma forma de fugir dos mortos-vivos que os cercam, olha para Michael e percebe que ele também é um! A sequência de dança que se segue é um irresistível e único momento da cultura pop; é a coreografia que todos nós, em qualquer parte do mundo, podemos identificar como a que consagrou o curta-metragem de Thriller! Como Jackson bancou os custos da obra, pôde ver seu investimento dar frutos com o lançamento do home-video The Making of Thriller, até 1988 o home-video mais vendido de todos os tempos, com 9 milhões de cópias comercializadas (o recorde foi apenas batido por Moonwalker... home-video do próprio Michael Jackson)!

Em 1 ano, Michael Jackson popularizou algumas das canções mais memoráveis da história da música pop, redefiniu o conceito de videoclipe, inovou a dança com surpreendente genialidade e cruzou a linha entre mortais e deuses, transformando-se para sempre em um ícone inigualável da cultura popular nos séculos XX e XXI.

Em 1984, Michael colheu os louros de Thriller ao ganhar 8 prêmios Grammy, vingando-se finalmente da premiação. Envolveu-se no famoso acidente do comercial da Pepsi, onde sofreu queimaduras no couro cabeludo, e percorreu cidades americanas com Victory, sua muito-celebrada turnê com os irmãos. Recebeu 20 discos de platina por Thriller nos Estados Unidos e uma homenagem oficial do Guiness Book, que introduziu Michael Jackson e seu Thriller como o álbum mais vendido da história da música!

Hoje Michael Jackson, a quem tanto amo por sua pessoa extraordinária, completa 50 anos e a ele aplaudemos por agraciar nosso mundo com a beleza de seu talento extraordinário! Em 2008, comemoramos o 25º aniversário do ano que mudou a carreira do Rei do Pop e vislumbramos a vitalidade da sua obra, que atravessa décadas sem perder a essência da supragenialidade daquele menino de Indiana, que ainda encanta a quem, boquiaberto, assiste ao seu "moonwalk" pela primeira vez ou aos seus videoclipes visionários!

A edição especial de Thriller, lançada no início deste ano, é um dos álbuns mais bem-sucedidos de 2008. Em tempos de download, o disco de 25 anos ultrapassou as 2 milhões de cópias vendidas sem qualquer dedo de Michael Jackson na publicidade do mesmo. Suas vendas ultrapassaram até mesmo os lançamentos de Mariah Carey e Usher, considerados dois dos maiores popstars do momento, e Jackson se encontra apenas pouco mais de 500.000 cópias atrás de Madonna que, em seu usual aparato de marketing, já conta com dois singles/vídeos no mercado e uma turnê mundial para apoiar seu álbum. É evidente a imensabilidade do impacto de Michael Jackson e seu talento, tão fortemente cravado em nossa cultura que nem sua imagem altamente difamada midiaticamente pôde arruinar.

"A grande música dura para sempre,"
Michael Jackson disse em uma entrevista há três anos atrás. Sua obra nos prova isso, a cada dia mais. Parabéns Michael pela grandeza da sua pessoa e do seu talento! São seres humanos como você que iluminam nossos corações e nos ensinam os verdadeiros valores desta vida. Este é o legado que teremos orgulho em preservar!

sábado, 16 de agosto de 2008

Madonna e o Fascínio da Imagem

“Os grandes artistas populares são alquimistas. Eles pegam materiais básicos – uma piada tola, uma estória banal, uma letra trivial – e transmutam-nos em ouro. Seus imitadores – os que se encontram abaixo da grandeza – são conjuradores: seus dons são postos ao serviço da ilusão. Com astúcia eles conseguem, ocasionalmente, nos persuadir de que aprimoraram o truque; mas é apenas isto – um truque – e o ouro que produzem não passa de uma imitação barata.” – Christopher Finch, “Rainbow: The Stormy Life of Judy Garland”.

Certamente quem acompanha as notícias do mundo do entretenimento está a par das comemorações dos 50 anos de Madonna e Michael Jackson. É evidente, no entanto, o intenso favoritismo da mídia a tal chamada Rainha do Pop. Em artigos recheados de cinismo e deboche, os auto-intitulados "jornalistas" desfilam parágrafos de oferendas àquela que, só Deus sabe onde, supostamente recheou nosso mundo com uma avalanche de criatividade e genialidade. Jackson, é claro, é citado como o que "perdeu o rumo" ou "enlouqueceu" (tais "adjetivos" apenas nos artigos dos "jornalistas" mais educados, obviamente).

Como o dono deste blog prefere a sinceridade ao contrário da arrogância infantilizada dos tais fãs da Madonna, revelo: não gosto de Madonna, por inúmeras razões. Entre elas, a desta endeusação insana do nada. Esquecemos mitos como Judy Garland, mas idolatramos o tão-chamado "talento" de Madonna. Que Deus nos perdoe!

Entretanto, não causa estranhamento tamanha efusão por conta dos 50 anos de Madonna. Ela está no mercado com um novo álbum, novos clipes e uma turnê mundial a iniciar. Considerando sua inquestionável aura mítica na cultura pop, era de se esperar que todos os meios de comunicação cabíveis se saturassem de homenagens. Mas curiosamente, há sempre um ponto em comum nas tais homenagens: a comparação com Michael Jackson, citando este de forma pejorativa, especialmente por estar inativo.

Pergunto: Que grande mérito há em Madonna ter atualmente um disco nas paradas mundiais? Sendo ela uma megastar acompanhada de uma grande estrutura de marketing, patético seria se tal feito não fosse conquistado. Ainda mais se tendo nomes como Justin Timberlake e Timbaland no disco. O sucesso então é uma prova do talento de Madonna (?) ou apenas de seu timing e noção de mercado, em convidar nomes quentes do momento pra garantir sua posição nos charts? O novo álbum de Madonna, como todos seus outros, nada tem de grandioso e inovador. Ao contrário de muitos, não me espanto com a mudança do estilo dance para o R&B/Hip Hop, apesar de tal mudança ser uma óbvia tentativa de conectar-se com o público adolescente americano, não entusiasta da techno-music. Madonna nunca teve uma identidade musical forte e tampouco contribuiu para a música, ao contrário de Michael Jackson, sempre lançando o que quer que estivesse em voga. Prova disso é a qualidade nostálgica de todos seus álbuns, que podem ser tidos como retratos da música pop mainstream do passado, enquanto Off The Wall de Jackson, por exemplo, continua sendo referência aos popstars do momento quase 30 anos depois de seu lançamento.

É curioso também o sucesso de Madonna ser sempre atribuído ao presente, como se a qualidade de seu trabalho ou o interesse no mesmo fosse a motivação-mor do sucesso que ela geralmente obtém. Não é! Madonna, assim como qualquer um que tenha sido fenômeno em algum ponto de sua carreira (e há validade nisso desde Michael Jackson à Xuxa), terá uma enorme probabilidade de obter êxito nos projetos que realiza por ter conquistado um público fiel, em especial se tais projetos forem comercialmente viáveis (como seus hits para adolescentes).

Comercialmente e, mais importante, artisticamente, é interessante observarmos a trajetória de Madonna e compararmos em justiça com a de Michael Jackson, já que tal comparação, absurda até em Plutão, parece ser a favorita dos anti-Jackson.

Quando Madonna começou a estourar, em 1984, Michael Jackson já tinha consolidado Thriller como o álbum mais vendido de todos os tempos. Enquanto Jackson nos brindava com clássicos da música como Billie Jean e apresentava o seu moonwalk, Madonna esganiçava Like a Virgin e rolava pelo chão do Video Music Awards da MTV (premiação esta que só existiu pelas obras pioneiras de Jackson em videoclipe, que popularizaram o formato), demonstrando efusivamente o seu grande talento artístico.

No final dos anos 80, Jackson lançava seu home-video The Legend Continues, que trazia depoimentos de lendas como Elizabeth Taylor, Katharine Hepburn, Gene Kelly e Sophia Loren sobre o talento de Michael Jackson. O coreógrafo de Fred Astaire, que trabalhou com o mesmo desde seus primeiros musicais na RKO, admitiu: "não comparem Michael Jackson com Astaire ou Kelly pois ele é um dançarino com seu próprio mérito e com seu próprio estilo". Pouco antes de morrer, Fred Astaire diria sobre Jackson: "Obrigado Michael! Não queria deixar este mundo sem saber quem meu sucessor seria!" Pouco depois, Madonna estaria nas manchetes por simular sexo no show Blond Ambition e lançaria seu documentário Na Cama Com Madonna, um monumento da egocentria em filme.

Michael Jackson retornaria em 91, com seu vídeo Black Or White exibido simultaneamente em 27 países para uma audiência de 500 milhões de pessoas, recorde absoluto de audiência para um videoclipe. Jackson ainda tornaria Dangerous o álbum mais vendido de 1992, com mais de 16 milhões de cópias no ano e ganharia o prêmio de Lenda Viva no Grammy. Madonna amargaria o fracasso de seu projeto "ambição sexual-revolucionária", consistindo no livro Sex, filme Corpo em Evidência e álbum Erotica. Este rolaria abaixo nos charts com pouco mais de 5 milhões de cópias vendidas, mesmo com uma turnê mundial para apoiá-lo.

Pelo resto dos anos 90, Michael Jackson ainda teria êxito comercial com HIStory e Blood On The Dance Floor, álbum duplo e álbum de remixes mais vendidos de todos os tempos, respectivamente. Nos anos 2000, Michael teria um álbum de inéditas sabotado pela Sony Music, seria ridicularizado pela imprensa e julgado por uma acusação de abuso sexual de um menor. Madonna, como gostam de enfatizar seus seguidores, lançaria vários discos e emplacaria alguns sucessos (nenhum de relevância como os do início de sua carreira, no entanto).

O ponto óbvio, cego aos olhos dos fãs da material girl, é a delimitação clara entre arte e entretenimento. Madonna é, como li um crítico musical dizer certa vez, um ato de cabaré que deu certo. Ela entrou na onda do megamarketing (iniciada com o fenômeno de Thriller) e transformou-se em uma das maiores estrelas do nosso tempo, abusando da publicidade pessoal e flertando com temas polêmicas como religião e sexualidade. Embora seus concertos possam ser bem-trabalhados e até mesmo interessantes como entretenimento, são sofisticados deste modo justamente para compensar a absoluta falta de talento de Madonna como uma autêntica performer e até mesmo como artista, na extrema semântica do termo.

O astucioso jogo de publicidade de Madonna com atitudes esdrúxulas (como beijar Britney Spears, por exemplo), que causam tanta polêmica vazia em nossa sociedade moralista, é o ponto-base do fascínio que sua imagem exerce. Seus fãs tomam tais atitudes como grande exemplo de “coragem” (vale lembrar que, na ocasião do beijo com Britney Spears, no Vídeo Music Awards, seu álbum American Life fracassava nos Estados Unidos) de uma mulher “emancipada”. Madonna, desta forma, se torna mito, e não por conta de algum talento extraordinário que possua.

Michael Jackson e Madonna. A única coisa que ambos têm em comum, além de terem nascido no mesmo ano, é a conquista do status de ícones mundiais durante os anos 80 e as vendagens absurdas de centenas de milhões de discos. Enquanto Michael Jackson pertence à mesma categoria de Astaire, Gene Kelly, Sinatra, fascinando a todos com sua supra-genialidade para o canto e a dança, Madonna é uma mera empresária calculando suas próximas jogadas de marketing para conquistar mais adolescentes ávidos por um ídolo pseudo-revolucionário.

Neste sentido, é de nula importância o fato de Jackson não ter um disco de inéditas em sete anos. O universo artístico foi tão fundamentalmente transformado por seu talento que ele pode dar-se ao luxo de dar o ar da graça de década em década, se for sua vontade. Seu clássico Wanna Be Startin’ Something é a base para um dos maiores hits do ano, Please Don’t Stop The Music da popstar Rihanna. O relançamento de Thriller, com um modesto single remixado lançado para as rádios, estreou como o disco mais vendido no mundo no começo do ano e, segundo estatísticas, alcançará até o final de 2008 as 3 milhões de cópias. Vale citar que Hard Candy, novo disco de Madonna altamente promovido, está perto da mesma marca.

Aplaudemos Madonna, entretanto! Hoje é seu 50º aniversário e, sejamos sinceros, são poucos os que conseguem um feito extraordinário como o seu: convencer todo o mundo, por mais de 20 anos, que é uma artista brilhante, revolucionária e genial ao patamar de Jackson, travestindo com excelência polêmicas baratas em pioneirismo artístico. Por estas e outras, congratulations Queen of Pop!

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Goodbye, Norma Jean...


Há 46 anos, perdíamos a estrela mais cintilante do horizonte cinematográfico. Norma Jean nos deixava para imortalizar Marilyn Monroe. Nas palavras de Elton John, Monroe viveu "como uma vela no vento". Sua vela já se apagou há muito tempo, mas nunca sua lenda.

Deixo-os com um pequeno poema que escrevi há dois anos. Que Deus lhe abençõe, Marilyn!


Para Monroe, de Quem Morre

À tarde, teço memórias para entreter o coração
E sorrir pra não cansar o tempo escasso
Do teu semblante estou a um passo
Da fotografia que inspira mais sincera oração

És tua a dor mais forte e estridente
Que resplandece nos teus olhos de fúlgida centelha
E ergue teu nome no céu até a mais alta estrela
Marilyn, tornaste-te ícone capital do mais berrante vazio
que se sente

E no falso brilhante do louro preto-e-branco já desbotado
Todas as coisas estão cheias de deuses, como a ti
Pois morrer é viver na solução do teu fado

Para sempre estarás encantada, num sonho eterno, sorrindo-te
Na alma dos que ostentam em ardor corações flagelados
Nobilíssima chuva que me faz chorar, seu nome guarda-te
Marilyn Monroe, símbolo eterno daqueles que nada buscam
a não ser serem amados.